Prazer em conhecer-te meu querido Peru

Sabem aquela expressão “o barato sai caro”? Foi isso que senti no dia em que era para ter voado de Lima para Cusco, com a companhia aérea de baixo custo, LC Peru. Exatamente: era para ter voado, mas como tal nunca chegou a acontecer estou num autocarro em direção a Lima, há aproximadamente 23 horas. Daqui a quatro horas parte o meu voo para Lisboa, e confesso que já pedi a todos os santinhos para me ajudarem a chegar a tempo ao aeroporto.

Mas afinal, o que correu mal com o meu voo? Tudo começou com o check-in online: quando o website da companhia não me deixou fazer o registo no voo em que eu iria na manhã seguinte, fui pesquisar no Google. Resultado? Mil e uma histórias de ‘horror’ sobre voos cancelados ou atrasados. Mesmo assim dirigi-me ao aeroporto de Cusco no dia marcado.

“Não há qualquer problema com o seu voo, e o balcão de check-in abre dentro de 15 minutos”, foi a frase que a funcionária da LC Peru proferiu para me tranquilizar. Claro que isto nunca chegou a acontecer. Para terem uma ideia, o meu voo era às 10:45h e o voo anterior ao meu (07:45h) havia sido cancelado. Motivo? Mau tempo, sendo que por isto a companhia quer dizer céu nublado, o que é algo frequente durante a parte da manhã em Cusco. E sabem a parte mais gira? Como o cancelamento se deve a mau tempo, e não a uma avaria técnica a companhia não é obrigada a devolver o dinheiro…

Portanto, como podem imaginar o meu voo também foi cancelado e fui-me embora do aeroporto quando uma multidão enfurecida invadiu os balcões da companhia aérea, ao mesmo tempo que a polícia corria para lá, numa tentativa desesperada de serenar os ânimos de toda a gente. Aliás, fui-me embora não… o termo melhor seria, fugi com um casal de holandeses tão assustados quanto eu, quando nos apercebemos do tumulto!

O remédio foi então, comprar um bilhete de autocarro na companhia Cruz del Sur e viajar 23 horas até Cusco por terra. Mas deixem-me dizer-vos que a jornada até nem está a ser má, e que apenas o embarque foi um pouco peculiar: a estação de autocarros parecia um terminal de aeroporto, com check-in da bagagem e revista aos passageiros. Adicionalmente, e antes da partida, um segurança foi aos nossos lugares filmar a cara de toda a gente! A viagem na verdade, é como ir em classe executiva num avião. Tenho música, TV com ótimos filmes, banco para os pés, menu vegetariano à minha disposição, assento reclinável, manta, almofada, e a cereja no topo do bolo: estou sentada na parte da frente do segundo andar, com vista panorâmica.

Sinto-me uma rainha. Uma soberana um pouco stressada claro está, porque as horas depressa passam e a minha chegada ao aeroporto depende do trânsito caótico de Lima. Felizmente, os ventos sopram a meu favor e chego a tempo ao meu destino. E apesar de toda a ansiedade das últimas horas, assim que entro no aeroporto fico um pouco nostálgica, ao pensar em todas as aventuras que vivi neste país.

Quinze dias, nove cidades. Cidade, montanha, deserto, praia e selva. Ver pinguins de manhã e assistir ao pôr-do-sol num oásis ao final do dia. Aprender a fazer champô com ervas. Sair da zona de conforto e fazer sandboard. Experimentar ceviche, queso helado e chicha morada. Ver as figuras das linhas de Nasca lá no cimo, e perceber que são ainda maiores do que na TV. Mitigar os efeitos da altitude com chá de coca. Regar uma subida de duas horas com bebida de quinoa com chocolate quente, para ter energia. Achar que alguém atirou tinta para cima da Montanha Arco-Íris. Pisar uma ilha flutuante. Lacrimejar de emoção em Machu Picchu porque se realizou um sonho.

Muito prazer em conhecer-te, meu querido Peru. E até breve.

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Viagem de autocarro

Uma surpresa colorida

Sabem aquelas alturas em que estamos prestes a fazer uma grande asneira, e somos salvos no último segundo? Foi o que me aconteceu no final do dia, quando regressava a Cusco, vinda de Machu Picchu. Fui acordada no autocarro por um telefonema: do outro lado o responsável da agência onde havia reservado um tour no dia seguinte, informa-me que caiu uma ponte e como tal o caminho do passeio está intransitável.

Diz-me que me vai buscar às 3.30h da manhã ao hostel se eu quiser trocar aquele tour por uma ida à Montanha Arco-Íris. Cansada agradeço, mas declino a oferta: estava há vários dias a dormir apenas três horas por noite, e sentia as pernas a latejar do esforço contínuo. Claro, que depois caí em mim: só faltava um dia antes de iniciar o meu regresso a Portugal, e a Montanha Arco-Íris (também conhecida por Vinicunca ou Montanha das Sete Cores) era um sonho antigo. Ligo de novo e pergunto se a oferta ainda está de pé.

Se não o tivesse feito provavelmente, não estaria agora a beber um maravilhoso chocolate quente com quinoa, numa casa familiar, uma hora antes do início do trilho que irei percorrer. Serão cerca de três horas de subida até alcançar o miradouro a 5000 metros de altura, onde irei ver a palete de cores da Vinicunca no seu esplendor, logo há que ter energia para tal: a dona da casa mima-nos, com pão barrado com compota, panquecas caseiras e chá de coca com açúcar mascavado. Que delícia!

Depois deste repasto, sinto-me cheia de energia e quando uma hora depois, a carrinha que nos transporta chega ao início do trilho (a cerca de 4000 metros de altitude) sou a primeira a sair, cheia de vontade de começar a caminhar. Contudo, devo ter um ar demasiado frágil, porque sou imediatamente rodeada por habitantes locais que me acenam com acenam com um ‘facilitador’ de percurso: “Quer alugar um cavalo, menina?”. Confesso que é uma hipótese tentadora, mas não ‘gracias’! Já agora: para os leitores que tenham medo de recusar esta oferta no início do percurso, na dúvida de poderem vir a ter que necessitar dela mais tarde, talvez vos interesse saber que existem cavalos espalhados por todo caminho, e que é possível alugá-los por um preço mais acessível.

Outra sugestão: apesar de esta região ser fria (com temperaturas perto dos zero graus) não abusem na roupa! É que à medida que o corpo começa a aquecer com o esforço da subida, existe a necessidade de retirar algumas camadas de tecido. Pelo menos, é isto que me acontece após a primeira meia hora de caminhada, e puf: lá se vai o quispo. O ideal mesmo, será levar uma camisola de manga comprida e um corta-vento.

Creio que por esta altura se estarão a perguntar: quão difícil é o percurso? Bem, não é perigoso ou demasiado exigente, mas para ser sincera confesso que a meio estou tão ofegante, que penso em me atirar para o chão (sim, estou em baixo de forma…)! Mas depois, olho em meu redor e reparo nas alpacas que pastam tranquilamente nos prados, nos ribeiros que correm brincalhões, na neve que cobre os picos das montanhas em volta, e arrependo-me de sequer pensar em desistir! E as cores? A este ponto, já distingo tonalidades cereja e alface, que ficam mais vívidas consoante as nuvens deixam ou não, o sol sorrir. A frase “O que importa é o caminho não o seu fim”, não poderia ser mais adequada neste momento.

Quanto à subida em si, esta não é muito íngreme, sendo que apenas a parte final é um pouco mais inclinada. É neste ponto, em que as pessoas que vieram de cavalo têm de seguir a pé (ah, pois é, os nossos amigos de quatro patas também têm direito a descansar!) e palmilhar mais uns 200 metros de altura. Agarro-me a todas as minhas forças, nesta parte e não páro até alcançar o miradouro da Montanha Arco-Íris. Em seguida, dirijo-me a um plano um pouco acima, onde existe menos gente. É que apesar de este passeio só ter começado a ser comercializado em 2016, a sua popularidade tem crescido em larga escala, e começa a ser notório o aumento de turistas neste local.

No sítio onde me encontro, tenho vista panorâmica: de um lado observo os contornos da Montanha das Sete Cores, tão vibrantes que parecem ter sido pintados; do outro, poiso o olhar em montanhas cheias de neve e vales a perder de vista. Para vos explicar melhor: sinto que estou a assistir a um espetáculo de fogo-de-artifício!

Depois de 15 minutos a apreciar a paisagem​, dou-me conta que tenho os dedos inchados e roxos. Os efeitos das temperaturas reduzidas e do vento gelado que insiste em soprar naquele local começam a fazer-se sentir. Com medo de me tornar no João Garcia em versão feminina (ai, o meu nariz!) início a descida de imediato, quando reparo num segundo pormenor: não sei de ninguém do meu grupo de passeio!!!

Terei chegado atrasada? Ter-se-ão ido embora sem mim? Eu, e a minha maldita mania de parar em tudo quanto é sítio para tirar fotos. É a vaguear neste tipo de pensamentos que encontro um dos meus guias: feliz, abraço-o e agradeço por não me deixar para trás! “Para trás?! Tu foste a primeira a chegar, parecias o Speedy Gonzalez!”. Só posso crer que a minha rapidez foi um efeito colateral do chocolate quente com quinoa. Isso, e da beleza da paisagem que me deu asas. E por falar em paisagem: o guia explica-me que as lindas tonalidades da montanha resultam dos diferentes minerais que ali se depositaram, camada a camada, durante milhares de anos. É verdade, a mãe natureza não faz nada por acaso!

Tal como o destino. Caso o meu passeio inicial não tivesse sido cancelado, não estaria a escrever esta crónica. E tivesse eu virado costas ao meu fado, recusando esta oportunidade, teria perdido uma das surpresas mais coloridas da minha vida!

Limite? O céu!

“Oh moçooo, tira aí uma selfieee!”, pede Thiago em tom de brincadeira a um topógrafo que encontramos no caminho para Aguas Calientes. Porque é que estamos a caminhar pela linha de comboio até esta cidade, quando poderíamos ir de transportes até lá? Ora, porque tudo o que custa vale a pena portanto, queremos que o caminho até Machu Picchu seja um desafio.

É verdade meus amigos, finalmente chegou o momento mais aguardado da minha visita ao Peru: vou conhecer a cidade perdida dos incas. Cheguei no dia anterior a Cusco, e o nervosismo era tanto que nem consegui aproveitar a localidade como deve de ser. Deambulei pelo bonito centro histórico e assisti às comemorações do aniversário​ da cidade, mas a minha mente já estava a processar o que iria fazer no dia seguinte.

Comprei um pacote turístico que inclui o transporte desde Cusco até à Hidroelétrica (ida e volta), uma noite de estadia em Aguas Calientes, três refeições e a entrada para Machu Picchu. Claro, que terei de caminhar da Hidroeléctrica até Aguas Calientes, e de lá subir até Machu Picchu, mas isso são pormenores… De facto, se tivesse mais tempo disponível faria o Inca Trail em cinco dias, mas assim sendo farei a caminhada em apenas dois.

Conheci Thiago, Shelly e Geane na carrinha que me levou até à Hidroelétrica e fui imediatamente desafiada para ir com eles até Aguas Calientes. Confesso que estava um pouco preocupada por ter de fazer esta parte do percurso sozinha já que estava a recuperar de uma intoxicação alimentar, logo foi com agrado que recebi o convite. Agora, à medida que caminho por entre a selva Amazónica, sorrio com as tropelias destes brasileiros que fizeram cinco dias de autocarro para virem conhecer o país dos seus sonhos.

“Se a gente pegasse o trem, não veríamos esta paisagem linda!”, desabafa Shelly quando vemos as copas das árvores refletidas num ribeiro. Bem, para ser sincera tenho que vos dizer que quase desejei ter apanhado o comboio quando tive de passar por cima do referido curso de água, equilibrada nas tábuas da linha do comboio… Nunca gostei de alturas!

Tirando essa parte apreciei bastante o percurso: parei inúmeras vezes para tirar fotos ao comboio azul da Peru Rail (caso se estejam a questionar, com as devidas precauções não é perigoso andar nos carris, pois os comboios anunciam ruidosamente a sua passagem), fiz uma pausa para espreitar os pequenos restaurantes que se escondem no meio da folhagem, e adicionalmente, encontrei caras conhecidas (existe tanta gente a fazer o mesmo percurso que é bastante provável cruzarmo-nos com pessoas que já vimos noutras partes do país). Só que as paragens foram tantas que quando damos conta é quase de noite e temos de fazer o percurso restante de lanterna em punho.

O resto do dia foi destinado a receber instruções dos respetivos guias, fazer check-in nos hosteis (infelizmente, fiquei separada dos meus compinchas brasileiros) e jantar. Dou uma volta de reconhecimento por Aguas Calientes, mas acho-a demasiado artificial. Sabem aquele busto polémico de Cristiano Ronaldo que foi feito para o aeroporto da Madeira? Pois, eu achei as estátuas de incas em bronze espalhadas pela cidade ao mesmo nível…

Depois disso, enquanto descanso no meu quarto e me sinto um pouco triste por não ter ficado com o contacto do trio que me acompanhou na caminhada deste dia, tenho uma surpresa! O recepcionista bate à porta anunciando: “O seu amigo Thiago, está aqui!”. Feliz por voltar a rever aquela malta bem-disposta, galgo as escadas até à entrada do edifício, e juntos combinamos um ponto de encontro às 4h da manhã. Unidos, iremos até Machu Picchu!

Nessa noite, a ansiedade misturada com a intoxicação alimentar que teima em regressar não me deixa dormir. Nem a mim, nem a um pobre rapaz que partilha o quarto comigo. “Precisas de alguma coisa?”, pergunta ele preocupado, depois de eu ter ido ao WC pela enésima vez. Inquieta, resolvo ir até à recepção do hostel para pedir o saco com o pequeno almoço reforçado a que tenho direito, e faço algum tempo na rua até me reunir ao trio maravilha.

A quantidade de pessoas que passa por mim a partir das 3h da manhã começa a ser bastante, portanto, não é com espanto que ao chegarmos ao primeiro posto de controle de Machu Picchu às 4.30h (só podemos entrar às 5h), enfrentemos uma fila de espera considerável. Ainda assim, os guardas são bastante expeditos a verificar os documentos necessários para o ingresso desta multidão (passaporte e bilhete de entrada) e quando damos por nós estamos a subir a escadaria que nos dará acesso às ruínas incas.

“Isto é para expiarmos todos os nossos pecados, força!”, incita Shelly quando olha para mim e vê o ar de uma morta-viva que está prestes a atirar-se das escadas abaixo. Nem lhe respondo… estou demasiado ocupada a amaldiçoar mentalmente os incas, e a atividade sísmica do Peru que contribuiu para que este povo fosse procurar abrigo nas alturas.

Continuamos a avançar enquanto a noite cerrada ameaça tornar-se dia, e quando reparamos estamos praticamente sozinhos no caminho: a multidão foi desaparecendo apressada, empenhada em alcançar o nascer-do-sol em Machu Picchu. Como tempos desesperados pedem medidas desesperadas, tomo a dianteira e tento animar os meus companheiros anunciando que “já estamos muito perto!” sempre que chego ao fim de mais um lance de escadas.

Claro, que repeti isto durante quase meia hora. Sabem a história do Pedro e do Lobo? Pois, quando finalmente alcancei a entrada de Machu Picchu ninguém acreditou em mim até a ver com os seus próprios olhos. Demorámos quase duas horas em vez dos 45 minutos previstos para chegar, mas nada disso importa pois no momento em que pisamos aquele solo inca choramos abraçados!

A paisagem é ainda mais avassaladora do que nas fotos: a frescura das montanhas, a história aos seus pés e o astro-rei a nascer. Como é possível que os conquistadores espanhóis não tenham dado por esta cidade até ao explorador Hiram Bingham a descobrir em 1911? Será que nunca tiveram coragem de subir até aqui, ou desistiram perante o esforço? Quanto a mim, sinto que valeu a pena subir cada degrau só para ver a luz beijar o Templo do Sol. Relaxada, sento-me durante quase uma hora nos terraços relvados, e agradeço a sorte que tivemos com o dia: nem sinal da famosa garua peruana (neblina)!

Porém, a vida real atinge-me como um beliscão, acordando-me deste sonho. O final da manhã aproxima-se e está na hora de nos pormos a caminho, por forma a estarmos às 15h na Hidroelétrica onde nos espera a boleia de volta a Cusco. Para além do mais, temos outras necessidades: só se pode comer, beber, ou ir ao WC fora do espaço (embora se possa reingressar com o mesmo bilhete três vezes no mesmo dia) e admito que preciso de um reforço de energia.

À saída, tiro uma última foto à montanha Huayna Picchu. “São estas experiências que fazem de nós melhores seres humanos”, diz-me Geane. E a verdade, é que depois desta dura etapa física me sinto uma pessoa mais forte! Dizem que o único limite é o que nos impomos a nós próprios. Pois, hoje o meu limite foi o céu!

No Lago Titicaca respira-se paz

O que fariam se estivessem em viagem, e durante uma pausa em que saíram do autocarro para esticar as pernas, este partisse sem vós? Eu fiquei mortificada quando isso me aconteceu, deviam ter visto a minha cara quando ouvi o motor do veículo e me dei conta que iria ficar em terra! Felizmente, a rapariga que estava sentada meu lado deu pela minha falta e o autocarro imobilizou-se um pouco adiante, enquanto eu corria que nem uma louca, com a mochila às costas atrás dele!

Este foi o momento alto da manhã em que viajei para Puno, a localidade peruana que dá acesso ao Lago Titicaca, e não sei se foi devido a esta adrenalina, ou à altitude (3800 m) mas à chegada estava de rastos. Claro que o cansaço e a má disposição não ajudaram na primeira impressão que tive da cidade: a quantidade de habitações em mau estado fez-me recordar uma favela gigante (existem muitas casas degradadas ou por terminar no Peru, devido ao terramoto de 2015 e porque os edifícios inacabados estão isentos de impostos).

Sento-me na entrada do hostel com a cabeça a latejar, e devo estar mesmo com mau ar porque uma senhora da receção vai a correr fazer-me um chá de coca. É remédio santo! No final da tarde já consigo dar uma volta pela cidade, e a má sensação do início do dia começa a dissipar-se: a Praça de Armas tem um ar bastante simpático, assisto a uma demonstração de danças tradicionais no centro histórico, e até o mercado local com a sua confusão de vendedores me fascina.

Não é a cidade mais bonita que visitei até agora​, mas não faz mal pois a razão da minha ida até Puno prende-se com outro fator… explorar o Lago Titicaca e as ilhas flutuantes construídas pelo povo de Uros: reservei uma visita guiada mesmo antes de viajar para o Peru. A expectativa é tal, que nessa noite praticamente não durmo com a excitação, e na manhã seguinte quase não dou pela viagem de barco até à primeira das duas ilhas flutuantes que iremos visitar.

No primeiro ponto de paragem, aprendo mais sobre o modo de vida dos nativos e da construção das ilhas, através de uma demonstração em pequena escala: dois homens mostram como unem blocos de terra com troncos de eucalipto atados com cordas, e posteriormente cobrem-nos com ​canas de totora. As cabanas são construídas em cima destas plataformas flutuantes que são bastante resistentes! Tanto, que até “podemos jogar futebol e volley, mas não basquete porque a bola não salta!”, brinca um dos habitantes. Esta demonstração não demora mais do que dez minutos, por isso fico admirada ao saber que na realidade o processo demora cerca de um ano! Claro que os materiais se vão degradando e, apesar de toda a manutenção, as ilhas têm um prazo de validade de 20 anos.

Contrariamente ao eucalipto que é trazido de Puno, a totora cresce no Lago Titicaca e tem múltiplos usos: para além da construção das ilhas, é utilizada na elaboração das cabanas e barcos de Uros. “Querem dar uma volta no meu Mercedes Benz?”, pergunta um dos habitantes antes de nos ajudar a subir a bordo da sua canoa. Enquanto navegamos calmamente pelo lago, observamos duas crianças que pescam à linha. Admiro a sua agilidade e sou informada que os petizes aprendem este ofício desde bastante novos. Porém, também têm outro tipo de educação: existe uma escola primária numa das ilhas e, segundo o nosso guia, é por pouco que não nos cruzamos com o professor que faz a viagem de Puno até lá diariamente.

No final do passeio, cada um de nós entrega dez soles ao chefe da ilha. É esta verba juntamente com a venda de algum artesanato e as receitas das visitas que ajuda a financiar as necessidades básicas dos habitantes, e ter acesso a alguma modernização: a título de exemplo, os painéis solares que instalaram há cerca de dois anos permitem-lhes ter algumas comodidades como televisão nas cabanas.

Partimos daqui rumo a Taquile fazendo apenas uma curta paragem noutra ilha flutuante para carimbar o passaporte (vão prevenidos se quiserem ficar com esta recordação!) e comprar alguns snacks. A jornada que nos aguarda é de duas horas, mas passa a correr. Vou para o convés apanhar sol, e enquanto troco impressões sobre a culinária peruana com outros passageiros descubro que andei a pronunciar ‘Pollo’ (frango) incorretamente durante o tempo em que estive no Peru: aparentemente, andei a pedir a uma ‘menina da vida’ grelhada! “Oh não, encomendei o almoço mal durante uma semana!”, exclamo desesperada perante a risada geral dos outros.

Ao desembarcar em Taquile são-nos entregues ramos de munha, a planta utilizada pelos habitantes desta ilha para mitigar os efeitos da altitude. O perfume das suas folhas, juntamente com a recompensa que me aguarda no topo da subida que terei de fazer, ajudam-me na caminhada até ao restaurante onde iremos almoçar. À nossa espera está um prato de sopa de quinoa, pão com vegetais e truta grelhada (acabadinha de pescar) acompanhada com arroz.

O local do repasto foi igualmente bem escolhido: saboreamos a refeição numa mesa corrida ao sol, e com vista para o mar. Hummm, que delícia! “Vocês esqueceram-se do protetor solar mas trouxeram vinho?!”, pergunta uma colega, entre risos, quando um casal de holandeses pede um copo e saca uma garrafa de vinho branco da mala.

Reina a boa disposição à mesa, e é com esse estado de espírito que recebemos uma habitante local que nos demonstra o fabrico de champô através de uma planta chamada chukjo. O processo parece simples: esmagar as folhas com uma pedra, filtrar com um pano, juntar água e voilá! “Não existem carecas em Taquilhe!”, diz-nos a simpática senhora enquanto nos dá a cheirar uma tigela com o champô. Cá para nós: tinha um aroma tão agradável que me apeteceu trazer um frasco cheio para Portugal!

Despedimo-nos dos nossos anfitriões e caminhamos até à outra ponta da ilha, onde está atracado o barco que nos levará de regresso a Puno. O caminho está repleto de vistas panorâmicas, casas com flores nas janelas, e anciões sentados a tricotar nos muros (contrariamente ao que estou habituada a ver em Portugal, aqui esta é uma tarefa exclusiva dos homens).

“As pessoas da ilha ainda conservam as suas tradições: existe um hospital mas 70% da população prefere os xamãs aos médicos”, revela-nos o guia. Xamãs?! Aqueles curandeiros que fazem feitiços? Bem, quase isso… segundo o que me é transmitido estes ‘médicos’ têm um método de cura que consiste em colocar porquinhos-da-índia no peito dos pacientes, de modo a que a doença passe para os animais.

Métodos arcaicos? Talvez, mas a verdade é que os habitantes desta ilha têm vitalidade para dar e vender! Seguindo as suas recomendações inspiro folhas de munha enquanto ando, e ao chegar ao barco reparo que a minha respiração continua tranquila, apesar dos quilómetros que andei. Na realidade, sinto-me muito mais calma do que quando cheguei a Puno e parece que de repente, todo o cansaço se dissipou.

As mezinhas não funcionam? Bem, comigo foram tiro e queda! Em Taquile o tempo passa devagar, ao ritmo da natureza. No Lago Titicaca respira-se paz.

Vale do Colca: um tesouro de valor incalculável!

Sabiam que a parte mais funda do Vale do Colca no Peru, é duas vezes maior que a do Grande Canyon? É que eu só fiquei consciente deste facto quando estava a programar a minha visita ao local, com o objetivo de ver a maior ave voadora do mundo, o condor-dos andes.

Como estou limitada em termos de tempo, decidi fazer uma​ excursão de um dia, em vez do trekking de dois dias, bastante popular entre turistas. Se recomendo a visita abreviada em vez do trekking? Bem, isso dependerá tanto do tempo que tenham disponível, bem como da vossa preparação física (terão de fazer uma subida de três horas), mas na minha opinião o trekking será sempre preferível pois permite conhecer melhor o vale.

A parte mais difícil da minha visita é mesmo a hora de começo: às 3.30h estou a entrar no autocarro da agência do tour, em Arequipa. Auchhh!!! São-nos entregues mantas, para nos protegermos do frio que nos chegará nas próximas horas. Afinal, iremos começar a aumentar a nossa altitude!

A primeira paragem acontece por volta das 7h da manhã para tomar o pequeno-almoço: pão com compota e manteiga, bebida de quinoa e muito chá de coca a acompanhar, para colmatar os efeitos da altitude. Por falar em quinoa: sabiam que há cerca de dez anos atrás, este cereal era considerado a comida dos​ pobres no Peru? Segundo o nosso guia, a quinoa preta (uma das variedades mais caras em Portugal) era inclusivamente destinada só para os animais, mas desde que a NASA utilizou este alimento para os seus astronautas o seu preço subiu exponencialmente.

De estômago cheio partimos em direção a Chivay, uma pequena cidade turística que é a porta de entrada para o Vale de Colca. Um aviso: se não querem ficar com a carteira mais leve, ou ser assediados, não saiam do autocarro aqui… é que a quantidade de vendedores que juram que têm as camisolas de lã mais baratas, ou de peruanos com trajes típicos que vos vão ‘oferecer’ a oportunidade de tirar fotos com uma alpaca é imensa.

A paragem neste local é curta: às 9h em ponto temos de estar no miradouro do Vale de Colca para observar o voo dos condores (que costumam estar mais activos a esta hora), facto que cumprimos escrupulosamente. Com muita pena minha temos apenas 45 minutos para permanecer neste local… o espetáculo de ver uma ave tão majestosa a planar sobre as montanhas não deveria ser apressado! Este é um dos motivos pelos quais vos recomendo o trekking em detrimento de uma visita mais curta.

Gasto praticamente, toda a bateria do meu telemóvel aqui, e quando chegámos às termas (incluídas no trajeto, mas com entrada opcional por dez soles ~ 2.7 euros) peço se a posso carregar num café, já que opto por não ir a banhos e ficar à espera dos meus colegas. Para quem ficar interessado em experimentar banhar-se nesta água quentinha e não tiver fato de banho, não se preocupem: é possível alugar tudo o que necessitam neste local.

Contudo, a fome já aperta e logo está na altura de almoçar. À nossa espera está um buffet onde podemos experimentar vários pratos de cozinha peruana e repetir a dose quantas vezes quisermos. O preço do almoço (30 soles ~ 8 euros) não está incluído no tour, porém, é bastante acessível.

Sirvo-me de uma sopa de quinoa como entrada, e em seguida experimento pimentos assados recheados e carne de alpaca (surpreendentemente macia!) acompanhados com batata doce e arroz. Juro-vos… as melhores batatas doces que comi até agora são do Peru!

Está na hora de regressar a Arequipa, todavia o caminho de regresso não me parece aborrecido: pela primeira vez observo vicunas! Bastante mais frágeis que as seus ‘primos’ alpacas ou lamas (sendo que os últimos são inclusivamente utilizados como animais de carga), são muito valiosas.

Para terem uma ideia, um quilo da sua lã vale perto de 500 euros, pois é tão fina que sete dos seus pêlos são mais finos que um fio de cabelo de um bebé! O facto de serem animais sensíveis torna a operação de tosquia igualmente delicada: os peruanos fazem cordões humanos para as apanhar e têm cerca de três minutos para lhes retirarem o pêlo. Como ​podem imaginar este é um animal extremamente protegido, sendo que quem os atropelar paga uma multa elevada, e quem os caçar está sujeito no mínimo a sete anos de prisão.

Na despedida, paramos no miradouro de São Miguel para observar o vale uma​ última vez. Ao longe, um vulcão entra em erupção expelindo uma nuvem de fumo negro. Olho para ele, e penso que este espetáculo é muito mais valioso do que qualquer casaco de pêlo de vicuna: até breve Vale do Colca!

Deliciosa Arequipa

O que responderiam à pergunta “De onde vens?”, quando estão entre várias nacionalidades, num país estrangeiro? Aposto que a maioria de vocês diria o vosso país de origem, certo?

Mas não é o que acontece na minha visita guiada a Arequipa, quando calha ao guia Edgar fazer a sua apresentação: “Eu sou de Arequipa, não do Peru… não se riam, olhem para este passaporte”. E perante o nosso espanto exibe um documento, onde eu esperaria que estivesse escrito ‘Perú’ na capa. Mas não… em vez disso aparece o nome ‘Arequipa’! Pois é, pelos vistos os arequipenhos tentaram separar-se do Peru no passado, e tinham inclusivamente um passaporte e moeda próprios!

Apresentações feitas, e um chá de coca depois, está na altura de começar a circular por Arequipa, de modo a conhecer alguns dos seus segredos. Pessoalmente, sempre que chego a uma localidade nova gosto de fazer uma ‘Free Walking Tour’ (visita guiada, em que os turistas pagam o que acham justo). Para além, de me fornecer informações úteis, fico a ter uma ideia dos pontos mais importantes a explorar e de sítios que não figuram nos guias turísticos. Adicionalmente viajei num autocarro noturno até Arequipa, onde cheguei às 5.30h. Como o check-in no hostel é só às 11h, mais vale aproveitar a manhã, não concordam?

Então, vamos lá! O primeiro ponto de paragem é a Igreja de São Agostinho, onde sou posta à procura de gambozinos… depois de alguns momentos a tentar enxergar a figura de um sol na porta principal, no seguimento de um desafio lançado por Edgar, descubro que era uma apenas brincadeira. De facto, existe um sol, mas gravado na porta secundária. “As crenças populares tinham de ser disfarçadas, não poderiam aparecer de forma tão evidente num edifício religioso!”, diz-nos Edgar, salientando a importância do Deus do Sol para o povo peruano.

Continuamos a caminhar em direção ao bairro El Solar. Não fico admirada quando Edgar nos diz que este é um dos pontos preferidos para as fotografias de casamento em Arequipa: o contraste entre as casas brancas e as flores vermelhas que enfeitam as portas e janelas é perfeito! A cereja no topo do bolo? A vista para um dos vulcões que rodeiam a cidade!

Na realidade Arequipa é rodeada por três vulcões (Chachani, Misti, e Pichu Pichu) cujos cumes cheios de neve avistamos agora, à saída do bairro. Um deles está activo, e se entrar em erupção, adivinham quanto tempo teremos para fugir? Meia hora? Dez minutos? Não… pelo que nos é dito, apenas 20 segundos!!! Mas o que é que se pode fazer nesse curto espaço de tempo? Tirar uma selfie???

“Também podem rezar!”, exclama Edgar a rir. Começo a pensar que ele está constantemente a gozar connosco! Seja como for, aproveita esta deixa para nos levar até à Igreja da Companhia de Jesus. “Existem túneis que vão daqui até ao Convento de Santa Catarina, e onde foram descobertos fetos”, revela o nosso guia. Aparentemente, este complexo do século XVI onde viviam freiras e donzelas que recebiam uma educação religiosa, esconde uma negra história…

Mas mais do que este facto insólito, a informação de que o convento é uma cidade dentro de Arequipa aguça a minha curiosidade. Visito-o de tarde, e percebo porque é que Álvaro Siza Vieira se inspirou nele: os frescos de cores vivas, os jardins cheios de vida, o contraste entre o vermelho vivo e o azul elétrico das casas, são um espetáculo para os meus olhos.

Tanto, que fico a explorar o local até ao final do dia e não aproveito o resto das sugestões de Edgar: a catedral da Praça de Armas, o Museu de Santuários Andinos (onde está exposta a múmia inca Juanita), e o Museu Arqueológico UNSA (gratuito!). Mais fica, para visitar numa próxima vez!

A visita guiada termina perto da hora de almoço: Edgar dá-nos a provar Queso Helado (um delicioso gelado de leite) e recomenda que almocemos no mercado local de modo a provarmos a cozinha de Arequipa. Entre as suas sugestões fixo o Lomo Saltado, um prato peruano de carne de vaca com refogado de cebola e tomate, que é servido com arroz e batatas fritas.

Experimento-o, e acho que é delicioso. A dose, contudo, dá para três pessoas! Recordo as palavras de Edgar: “Se passarem 15 dias em Arequipa, vão levar mais cinco quilos para casa”. Dou-lhe razão, mas penso cá para mim, que pelo menos serão cinco quilos de felicidade pura!

Sobrevoar a história de Nasca

Finda a minha etapa da viagem em Huacachina está na altura do próximo ponto do meu itinerário: Nasca. As linhas de Nasca sempre me fascinaram e quero vê-las do ar em todo o seu esplendor.

A viagem até Nasca com o autocarro da Peru Hop incluí uma paragem numa torre onde podemos observar duas figuras, mas eu quero a experiência completa. Ao subir à torre no final da tarde, percebo que tomei a decisão certa: não é possível ter uma visão correcta das figuras de lá, para além de que o local é demasiado apertado para a quantidade de pessoas que viajam no meu grupo.

“Se deixarem cair algo não o podem ir buscar, é uma oferenda!”, avisa-nos o guia Diego enquanto tiramos fotos perto da vedação da área protegida do deserto de Nasca. Agarro o meu telemóvel com unhas e dentes: irei precisar dele para documentar o dia seguinte!

Havia reservado previamente um voo sobre as linhas de Nasca com a companhia Aeronasca. Havia ouvido algumas histórias menos boas sobre as avionetas que realizavam esta experiência, e seguindo os conselhos que me deram tentei escolher uma companhia que não praticasse preços demasiado baratos.

Ainda assim, admito que quando chega o grande dia estou um pouco nervosa… imagens de mim enjoada e agarrada a um saco de papel inundam a minha mente. Contudo, percebo que não existe motivo para tal! A avioneta tem capacidade para seis passageiros, que são pesados antes de entrar e distribuídos de forma a balancear o seu peso.

Antes de voar são-nos distribuídos auscultadores, e mapas com as localizações das 12 linhas que iremos sobrevoar. O voo decorre sem sobressaltos: somos avisados assim que nos aproximamos de alguma linha e o piloto tem o cuidado de virar o avião para ambos os lados, de modo a que ninguém fique prejudicado.

Deste modo, planamos sobre a baleia, o colibri, o papagaio, o macaco… admito que alguns são bastante fáceis de identificar, mas outros como o astronauta, imprimido na face de uma montanha, nem por isso… de qualquer forma tirei uma foto do local, na esperança de que talvez mais tarde, e com algum zoom consiga finalmente distinguir a figura!

Se vale a pena gastar dinheiro no voo? Na minha opinião sim! É fabuloso observar aquelas figuras do ar, e pensar que foram feitas há séculos atrás (400 a 650 D.C.) pelo povo de Nasca quando ainda não existia a tecnologia dos dias de hoje: os desenhos foram feitos removendo as pedras avermelhadas desta região e pondo a descoberto o chão esbranquiçado por baixo. São várias as teorias propostas para a origem destas linhas, mas à medida que as observo lá do alto contrastando com o deserto árido, gosto de pensar que foram feitas para invocar chuva.

Para além disso, vale a pena passar pelo menos uma noite em Nasca, por forma a ter tempo de visitar os Aquedutos de Cantalloc, o Cemitério de Chauchilla (onde podemos ver múmias em excelente de conservação – sim, eu sei que parece um pouco estranho visitar um cemitério, mas acreditem que é interessante!) e as ruínas de Cahuachi.

Quanto à cidade de Nasca em si não a achei muito interessante, mas a comida é ótima (experimentei escabeche de frango e adorei) e as dormidas podem ser bastante baratas. Para terem uma ideia, paguei 14 euros por um quarto individual, com todas as comodidades e pequeno almoço incluído, no Nasca Travel One Hostel.

O dono Aníbal leva-me até ao ponto onde eu irei apanhar o próximo autocarro da Peru Hop sem me cobrar nada por isso, e como forma de agradecimento prometo que o irei indicar a quem me pedir recomendações para esta cidade. Agora, está na hora de dizer adeus a Nasca… Porém, espero que Arequipa seja igualmente hospitaleira!