As virtudes do Palácio Nacional da Ajuda

Esculpidas, na solenidade do seu mármore branco, esperam-me nas arcadas do palácio: as Virtudes. Clemência, Perseverança, Lealdade, Amor da Pátria, Amabilidade, Acção Virtuosa, Inocência, Humanidade, Constância, Generosidade, Honestidade, Gratidão e Intrepidez. Quando cruzo a entrada, daquela que foi a residência do rei D. Luis e a da sua esposa D. Maria Pia, sinto-as entrar atrás de mim.

Começo a percorrer os majestosos corredores do Palácio Nacional da Ajuda, cujos detalhes históricos foram reproduzidos fielmente, e onde as descrições de cada compartimento foram aprimoradas. Sou transportada para o passado nesta máquina do tempo improvisada: assim que alcanço a Sala do Reposteiro, a Amabilidade vestida com uma casaca vermelha agaloada de ouro dá-me as boas vindas. Pede-me desculpa pela ausência do Porteiro da Cana, que deveria anunciar a minha presença, e explica-me que este está constipado devido às correntes de ar constantes que aqui se fazem sentir.

Continuo a minha visita, enquanto demoro o olhar em cada pormenor das salas: os tectos e paredes ganham vida com as pinturas alegóricas, os lustres imponentes, e as tapeçarias coloridas. Os quadros, e molduras dispostas em cima da mobília, contam a história de uma nação que progrediu durante o reinado de D. Luís, sob o signo da Clemência, e protegido pela Constância.

Amante das artes, D. Luís tocava vários instrumentos, mas se tivesse que optar entre o piano de cauda, ou o violoncelo dispostos na Sala da Música onde entro agora, não hesitaria em eleger o segundo como seu filho predilecto. A melodia presente é tão palpável, que assisto a um dos muitos serões musicais aqui organizados, e os meus ouvidos saboreiam o som angelical da harpa tocada, pela Acção Virtuosa.

Por sua vez, na Sala Azul decorre uma sessão de leitura em voz alta, que entretém a jovem rainha que desliza pelo compartimento, tão suavemente como a seda em tons de índigo que o adorna. Ao passar pelo vão de cristal que rasga a parede, D. Maria Pia detém-se junto da companheira Lealdade, e olha para o esposo que fuma no Gabinete de Carvalho. Enquanto se conheciam através de cartas de noivado, guiado pela mão da Honestidade, D. Luis revelou-lhe este hábito que persistia desde os seus tempos na marinha.

Nessa altura, a então Princesa de Sabóia ainda residia em Itália, e na tentativa de tornar a sua chegada ao reino o mais aprazível possível, D. Luis dedicou particular empenho à decoração do Quarto de Cama da Rainha. Inspirado pelos seus dias no mar quando se fazia acompanhar pela musa Intrepidez, fez nascer um recanto com o cheiro do oceano profundo. Agora, vejo a Gratidão que repousa na sumptuosa cama, com longos cabelos acobreados que sobressaem por entre o brilho do ouro e safiras.

Em cada espaço que visito, sinto a presença de D. Maria Pia. A menina rainha que contava apenas 14 primaveras na altura da chegada a Portugal em 1862, veio acompanhada da aia Inocência, mas logo fez amizade com aquela que se tornaria a sua melhor amiga: a Perseverança. Um ano depois apenas, exigiu que o nascimento de D. Carlos fosse em privado contrariando o protocolo real, e ao longo de quase meio século moldou o Palácio da Ajuda na residência confortável e moderna na qual pretendia educar a sua descendência.

As revistas estrangeiras que lia avidamente mantiveram-na a par, não só das últimas tendências da moda, mas também das inovações do quotidiano que surgiram no século XIX. É isto que a prestável dama Generosidade me revela, enquanto me guia através do exótico jardim de inverno na Sala Mármore, me mostra as delicadas peças em porcelana de Saxe que desabrocham como flores num roseiral na Sala Rosa, e quando me explica a modernidade do sistema de águas canalizadas de que dispõem as casas de banho reais.

Antes de me deixar, escolta-me até à Sala de Jantar com o intuito de me mostrar a beleza das taças de cristal Murano, que a rainha trouxe das suas viagens a Itália. Aqui, emana o aroma da galinha cozida, acompanhada de arroz branco e guarnecida com presunto e toucinho, provenientes de um almoço tardio. A vida política foi deixada lá fora, e a conversa decorre animada entre D. Luís e o Professor Thomaz de Mello Breyner, que lhe pede novidades acerca da mais recente expedição de pesquisa oceanográfica apoiada pelo rei.

Esperando ficar a conhecer algo mais sobre a vida privada deste espírito culto, sigo para o Atelier de Pintura. Contudo, com os olhos toldados por uma curiosidade apressada, confundo um dispositivo em exposição com uma máquina fotográfica de fole. É o senhor Paulo Gonçalves, vigilante da sala, quem me chama de volta à realidade, e me obriga a olhar com mais atenção: “É um megaletoscópio, era utilizado para ver fotografias com uma sensação de profundidade e perspectiva”. É também ele quem me diz que não posso deixar de visitar a alva Sala dos Grandes Jantares com a prataria que brilha à luz das velas, e onde ainda são servidos os banquetes da Presidência da República, ou a imponente Sala do Trono na qual tinha lugar a cerimónia de Beija-Mão.

Por fim, desvenda-me o segredo que encerra a misteriosa porta, acessível através de um vão de escadas de madeira que sobem no espaço onde nos encontramos: “Aquela parte do palácio está encerrada ao público, mas era ali que a rainha cozia no forno as peças de barro que vendia para angariar dinheiro para caridade”. Subitamente, julgo ver a pesada porta de madeira a abrir, e vislumbro aquela que foi apelidada de “Mãe dos Pobres”. Auxiliada pela companheira Humanidade, retira do calor, uma fornada de pequenos anjos que irão zelar pelas vítimas do incêndio no Teatro Baquet, no Porto.

Ansiosa para ver com os meus próprios olhos, as últimas maravilhas descritas pelo sorriso do senhor Paulo, apresso o passo e retomo a minha marcha histórica. Noto agora que a decoração das salas se torna mais solene, anunciando o clímax deste passeio. Não me engano. Quando passo pela Sala dos Archeiros fito a abóboda azul celeste e interrogo-me se ainda me encontro dentro do palácio: tão realista é a pintura do tecto, que mais parece que fito o céu lisboeta, com o sol carregado de Tejo que me iluminará o rosto à saída.
Termino a visita com o peito a transbordar de orgulho no legado português. Miguel Torga disse em tempos: “Cada época é definida pelo que apresenta de novo, de especificamente seu. Pode não ser um alto pensamento filosófico, uma grande reforma moral, uma arte requintada, uma ciência generosa. Mas há-de ser a dádiva de qualquer uma dessas manifestações humanas, ou todas, numa concepção inteiramente inédita, original, inconcebível noutro tempo da história.”.

O Palácio Nacional da Ajuda é uma dádiva valiosa que define uma era da nossa nação, e merece ser coroado como tal. Quando cruzo a porta derradeira, as Virtudes esperam-me. Despeço-me. Mas o Amor da Pátria vem comigo.

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