O mundo surpreendente do Palácio Nacional de Mafra

Qual a primeira coisa que reparo ao entrar no Palácio Nacional de Mafra? Numa Coruja-da-Lapónia. E em seguida, numa Coruja-do-Mato. Também vejo falcões e julgo, inclusivamente, distinguir uma águia. Todas juntas em plena socialização no jardim.

A resposta é improvável, mas a educação ambiental nem por isso: numa época onde se reveste de extrema importância alertar as gerações mais jovens para a protecção das espécies em perigo, a Ambifalco, dá a cara por esta iniciativa exemplar. A organização que tem como missão a conservação das aves de rapina, relembra a importância histórica da falcoaria em Portugal, e satisfaz a curiosidade dos mais novos que se aproximam deliciados: “Os olhos dela são como dois berlindes, e rodam de maneiras que os nossos não conseguem.”, explica Pedro Silva, voluntário da instituição.

Depois deste encontro inesperado, dirijo-me à parte conventual do palácio. Reza a lenda que, em 1717, D. João V teria aqui mandado erguer um convento em cumprimento de uma jura que fizera para que lhe fosse concedido um filho. A promessa que era destinada a albergar cerca de 30 frades tornou-se um projecto megalómano que foi alargado a 300 religiosos, uma basílica e um palácio real. Nas torres do convento o rei mandou instalar um dos maiores conjuntos de carrilhões do mundo, e terá exclamado ao tomar conhecimento do avultado orçamento de 400 contos: “Pois nunca supus que fosse tão barato! Quero dois!”.

A religião que dá origem a tão grandiosa obra, dá também início ao meu percurso: entro no Núcleo de Arte Sacra. Entre relicários, missais, purificadores e pinturas alusivas ao mundo religioso, deixo-me invadir pelo ambiente celestial inexplicável, que experienciamos nas grandes igrejas. Ladeada por outros visitantes, interrogo-me se serei a única a sentir esta envolvência, quando o silêncio solene é quebrado por uma voz infantil: “Mãe, está ali um menino com asas!”. Ao fundo, um petiz indica com o dedito o caminho para um quadro com anjos. “Filho, os seres com asas são?…”. Pausa silenciosa da criança e de todos os presentes da sala que esperam o desfecho da questão. “São… FADAS!!!”, replica ele, como quem acabou de descobrir a pólvora, perante o olhar desconcertado da progenitora, e da risota geral dos espectadores, eu incluída.

Com a barriga a latejar resultante deste ataque de riso feliz, sigo para a Enfermaria Conventual em busca de uma cura para a minha enfermidade: no século XVIII os frades possuíam conhecimentos avançados de produtos naturais que utilizavam para tratar a população. Nos armários do frade-boticário, admiro os boiões de cerâmica outrora utilizados para guardar os medicamentos, feitos com vinagre, cera, resina, açúcar, mel, raízes e ervas provenientes da horta do convento (abóbora, erva doce, hortelã e sementes de melão). Visito também a ala onde frades enfermeiros zelavam pelos doentes graves. As camas de madeira onde eram afixadas as receitas do médico, são separadas por paredes de azulejo, e é fácil imaginá-las alinhadas no corredor aos domingos, onde eram colocadas para que os pacientes assistissem à missa.

Vista a zona conventual do palácio, subo ao andar nobre do edifício com o intuito de visitar a zona habitada pela realeza: o Paço Real é constituído por dois torreões (o Norte pertencente ao Rei e o do Sul à Rainha), ligados por uma longa galeria que nos deixa com dores na cervical de tanto admirar o seu tecto lindíssimo. Esta organização manteve-se até à morte de D. Fernando de Saxe-Coburgo, altura em que a família real passou a habitar apenas o torreão sul, ficando o espaço a norte reservado a hóspedes importantes.

Ao percorrer os aposentos do rei, contemplo as paredes mapeadas por decorações murais e mobília requintada. Contudo, sou alertada para uma riqueza que se perdeu com a ida da família real para o Brasil em 1807, antes das invasões francesas: “D. João VI levou grande parte do recheio do palácio com ele. Foi melhor assim, creio que os franceses teriam usado a mobília como lenha para se aquecerem: Mafra é uma terra tão fria!”, comenta a simpática vigilante, Sandra Miguel.

Palavra puxa palavra, diz que não posso deixar de visitar a biblioteca do palácio e confidencia-me que acabou de adquirir um exemplar do livro A Mensagem Secreta de Lisboa, da autoria de Mafalda Moutinho: “Parte da trama é passada na biblioteca do palácio, e achei piada porque refere a família Magens.”. Perante o meu ar atónito revela: “Gil Magens foi o último habitante do palácio, tinha permissão para morar aqui porque a família dele zelou pelo espaço durante gerações.”.

Com a curiosidade ao rubro, e desejando percorrer os mesmos corredores que em tempos foram protegidos pelo clã de zeladores, parto em direcção ao espaço no qual tanto conhecimento foi acumulado na forma de papel. Enquanto, atravesso os majestosos aposentos da Galeria Principal trechos do Memorial do Convento, obra-prima de Saramago, começam a inundar a minha mente: “el-rei faz quarenta e um anos e vê sagrar o mais prodigioso dos monumentos que em Portugal se levantaram”.

Passo pela Sala da Guarda onde Faetonte tenta em vão dominar os seus cavalos no céu, e mais adiante alcanço a magnífica Sala da Bênção. Encontro-me agora dividida entre a luz divina e a claridade natural: à minha esquerda a janela que se abre para a basílica, e à direita a varanda onde o rei D. João V e o patriarca de Lisboa apareciam ao povo. Sussurra-me Saramago: “Eram cinco horas quando o patriarca começou a missa de pontifical […] dali subiu à tribuna da casa de Benedictione para lançar a bênção ao povo que esperava cá fora, setenta mil, oitenta mil pessoas, que num grande sussurro de movimentos e vestes se derrubaram de joelhos no chão, momento inesquecível, por muitos anos que eu viva”.

Mas se tamanha multidão compareceu à bênção, outra tanta foi responsável pela construção do espaço em meu redor. Cerca de 52 mil trabalhadores vindos de todo o país, um rei visionário, e uma arca do tesouro chamada Brasil, ergueram paredes que acolheram gerações da monarquia portuguesa. Aqui se urdiram intrigas políticas, se saborearam melodias na Sala da Música, se jogou Bilhar Chinês na Sala dos Jogos, e se compararam troféus na Sala da Caça.

Chego, por fim, ao destino mais aguardado: 36 mil livros abrem-se diante de mim, em duas fileiras de estantes separadas por um varandim. Um universo de valor incalculável, onde orbitam primeiras edições dos Lusíadas e do Alcorão, ou várias obras proibidas pela Inquisição. O chão em quadrados de mármore rosa, branco e cinzento, é um jogo de tabuleiro gigantesco onde se movimentavam frades Franciscanos em busca das várias áreas do saber. Encadernadas a couro, e gravadas a ouro, aqui se digladiavam a Matemática, Teologia, Medicina, História, Geografia e Direito, numa batalha de conhecimento em que o prémio era a sabedoria e não existiam vencidos.

Fico a saber que o toque exótico da sala se deve parcialmente à madeira das prateleiras proveniente do Brasil, mas que esta não foi a única matéria importada: “Muitos dos livros fazem parte do espólio que D. João V adquiriu durante as suas viagens, ou mandou vir do estrangeiro”, revela-me a solícita funcionária Domingas.

É então que, prestes a dar por terminada a minha visita, reparo numa nota explicativa: os volumes têm como guardadores um inesperado bando de morcegos, que zela pelas obras comendo traças e outros insectos nocivos. Talvez tenha sido este o motivo pelo qual a biblioteca de Mafra, foi considerada uma das mais surpreendentes, para além de uma das mais belas do mundo.

Não me espanto, contudo. Afinal, se existe lição que aprendi com este passeio é que o Palácio Nacional de Mafra é, e foi ao longo da história, um conjunto de habitantes, acontecimentos e momentos imprevisíveis que resultaram numa beleza majestosa sem igual. Porque por vezes, é necessário que aconteça o inesperado para se alcançar a grandiosidade.

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