Abraçar o inesperado em Atenas

“Já tens a tua carteira de volta?”, ouço perguntar. Viro-me e reconheço-a imediatamente: era a rapariga que me tinha tentado ajudar na noite anterior, quando me dei conta que tinha deixado a minha bolsa num qualquer restaurante de Atenas. Da primeira vez que ela me abordou, eu estava na recepção do hostel a tentar descobrir o telefone de um estabelecimento longínquo do qual já nem me lembrava do nome, ou localização. A minha única pista? A memória fugidia de um Cadillac, à porta de uma hamburgueria ao lado.

Devia ter um ar realmente assustado perante a possibilidade perder a carteira, com todos os documentos, num país estrangeiro e completamente sozinha, porque entretanto se juntaram alguns espectadores. Ela, que fazia parte do grupo de hóspedes que se tinha apercebido da situação, resolveu não ser uma mera observadora.

Sem rodeios veio ter comigo, oferecendo-me ajuda e dinheiro para o que fosse necessário. Felizmente, o recepcionista do hostel que devia ser descendente directo do Sherlock Holmes, descobriu os contactos do restaurante e assegurou-se que o dono guardaria os meus pertences até o dia seguinte. Agradeci, e animei-me com a ideia de que as pessoas são essencialmente boas em todos os lugares do mundo.

Contudo, quis o destino que não fosse a última vez que nos cruzávamos, portanto ali estava eu: no meio das ruínas do Templo de Zeus, a sorrir perante aquela surpresa agradável, e a agradecer uma vez mais o conforto da generosidade dela. “Queres ir comigo até ao Estádio Olímpico?”, perguntou-me. Eu, que nessa manhã tinha planeado um dia bem diferente acedi, quase por instinto. Havia algo na ideia que me agradava: Portugal e Hong Kong, a descobrir uma cidade em conjunto.

Foi assim, que deambulámos pelas ruas de Atenas, que nos tornámos vencedoras e tirámos fotos uma à outra no pódio do Estádio Olímpico, que assistimos ao render da guarda no Palácio Presidencial, que percorremos jardins, e que acabámos o dia num café pitoresco, a lanchar e a falar sobre a vida.

Nesse momento, entre colheradas de iogurte grego com fruta, percebi que independentemente das nacionalidades, todos temos as mesmas dúvidas, receios, e todos queremos o mesmo: ser felizes. Em vez de se deixar abater pela tristeza, a minha companheira tinha escolhido viajar por um par de semanas, depois de um desgosto amoroso. Contudo, durante a viagem, percebeu que a vida ainda tinha muito para lhe oferecer e decidiu não fazer daquele um acto isolado: trocámos contactos no Facebook e tenho acompanhado, desde então, o percurso dela pela Europa sempre com um sorriso estampado no rosto.

No fim, despedimo-nos com um até já, e fomos para os respectivos quartos fazer as malas. Era o meu último dia em Atenas, e senti-me agradecida pela oportunidade de ter conhecido alguém tão inspirador. Era o final da minha viagem, mas também aquele em que aprendi uma lição valiosa: mais importante do que ter um itinerário programado, é poder abraçar o imprevisível. E muito mais valioso do que descobrir locais, é poder conhecer pessoas e a sua história.

Um dia talvez regresse à Grécia e visite os lugares que entretanto não conheci. Talvez. Se o inesperado me deixar.

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