A magia de Cerdeira

“Já foi a Cerdeira?”, pergunta ele em jeito de sugestão. Nunca tínhamos trocado qualquer palavra, mas já nos havíamos cruzado várias vezes nesse mesmo dia: ao pequeno almoço, na pousada onde estávamos hospedados na Lousã, na Praia Fluvial de Nossa Senhora da Piedade, e agora na aldeia de Xisto de Candal.

Como à terceira é de vez, e as coincidências não passam de meros estratagemas que o destino possui para nos guiar subtilmente, resolvemos trocar sorrisos e experiências de viagem. É assim que ele, empenhado em mostrar Portugal ao filho adolescente, dedica também algum do seu tempo a recomendar uma visita àquela aldeia de Xisto, que na pressa da juventude eu quase ia ignorando.

Rumo então, à antiga povoação perdida na Serra da Lousã. Entro em Cerdeira por uma ponte de madeira que liga o mundo real à terra dos sonhos: o sol aquece as casas de Xisto que sobem as escadarias da encosta verdejante, e o regato que corre no fundo do vale toca a melodia que se torna na banda sonora do passeio. Com uma serenidade que me invade a alma, recordo o universo da Bela Adormecida, e quase que antecipo o momento em que as ruas se encherão de povo, entretanto despertado do seu encantamento.

Uma indicação avisa-me que tal não acontecerá: tomo conhecimento que nesta localidade habitam menos de 10 pessoas. Contudo, percebo de imediato que pouca gente não é sinónimo de melancolia. Saboreio a alegria das portas cor de mar a contrastar com a pedra escura, e janelas tom de cereja para recordar a árvore que deu origem ao nome da aldeia: Cerejeira é neta da palavra Cerdeira.

À medida que percorro os pacíficos caminhos de ardósia descubro igualmente que a paz incita a criatividade: existem pedaços de madeira moldados em arte no Atelier de Kerstin Thomas, e apelos para apadrinhar os tijolos do forno que irá ser utilizado pelos ceramistas da Casa de Artes e Ofícios.

Já de saída, procuro uma vista panorâmica, e ao ver os casarios bem preservados recordo a lenda: diz a sabedoria popular que o Senhor dos Aflitos protegeu Cerdeira e esta foi das poucas localidades a escapar às invasões Napoleónicas.

Será que foi o mesmo santo que criou um remoinho de coincidências que me trouxe aqui?

Não sei. Mas aproveito para inspirar magia.

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2 thoughts on “A magia de Cerdeira

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