A canção de embalar dos fiordes

“Não sei se teremos dinheiro suficiente para o autocarro”, diz a minha companheira de viagem. Na despreocupação das férias tínhamos apanhado o ferry que fazia a travessia de Flam para Gudvangen sem verificarmos quanto dinheiro tínhamos na carteira. A Noruega revelava-se uma companhia cativante e, enfeitiçadas, queríamos conhecer mais sobre aquele ser de paisagens puras. Contudo, neste momento percebemos com alguma inquietação, que esta é uma amizade realmente cara.

Enquanto navegamos nas águas calmas do Aurlandsfjord, ficamos a saber que não existe qualquer multibanco no pequeno porto de destino, e ainda precisamos de apanhar transporte para chegar à cidade de Voss. Como não existe nada que possamos fazer de imediato, a não ser esperar pelo desembarque, recordo o conselho tão sensato de uma amiga: “Quando a altura chegar, logo lidas com o problema. Até lá, não vale a pena a preocupação”.

Portanto, deixo-me invadir pela tranquilidade deste mar que flui pela paisagem norueguesa livremente, e não se deixa intimidar com as montanhas que encontra no seu caminho. Esvazio a mente e aproveito cada detalhe da paisagem. Desejo saciar a sede nas cascatas que escorregam alegremente pelas colinas adormecidas. Reparo em cada casa perdida no meio das serras e, inocentemente, invejo os que habitam naquela paz. Quero tocar nas esmeraldas e safiras que o barco vai desbravando à vez, percebendo que, tal como a água, sou um mero reflexo daquilo que me rodeia. Inspiro o nevoeiro que se dissipa à nossa passagem e sorrio quando uma brisa traquina brinca com o meu cabelo. Subitamente, encarno o Alberto Caeiro e “Toda a paz da Natureza sem gente/ Vem sentar-se a meu lado”.

Aportamos e descobrimos que temos dinheiro suficiente para comprar bilhetes para Voss, afinal. Cumulativamente, os donos de uma loja de recordações ainda se disponibilizam a ajudar, caso venhamos a precisar de alguma coisa. A sugestão da minha amiga revela-se uma dádiva preciosa: existe um momento certo para o desassossego. Até lá… mais vale aproveitar a ‘viagem’ e deixar-me embalar pelos fiordes.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s