Santa Apolónia foi invadida!

“PIRATAS”!!!, exclama a minha sobrinha pequena ao ver um dos veleiros ancorados no cais de Santa Apolónia. Embora não sejam corsários, a afirmação dela é em parte verdade: Santa Apolónia foi invadida por uma frota de gigantes do mar, numa iniciativa fundada há 60 anos com o objectivo de manter vivas as tradições dos grandes navios de vela.

Em 1954, o Pedro Theotónio Pereira (embaixador de Portugal em Londres) e Bernard Morgan (advogado inglês) incitaram a realização de uma regata que reunisse os grandes veleiros ainda existentes, na altura em vias de extinção depois da chegada do motor de propulsão a vapor. A iniciativa que contou na sua primeira edição com 20 veleiros, atraiu atenções de todo o mundo e transformou-se no maior festival náutico da Europa.

A edição de 2016, com partida em Antuérpia e chegada a Cádis, faz passagem por Lisboa e entre as dezenas de gigantes oriundos de vários países europeus, conta também com seis veleiros portugueses: Creoula, Vera Cruz, Santa Maria Manuela, Zarco, Polar e Harfang Two. Curiosa em conhecer o interior dos veleiros que repousam no cais, antes da próxima etapa da sua jornada, parto à descoberta. Entro no mexicano Cuauhtémoc embalada pela música alegre, e pela simpatia dos marinheiros que nos recebem com um sorriso. Passeio pelo convés e espreito o código internacional de sinais afixado, assim como a parte de dentro da ponte de comando, repleta de monitores, aparelhos, blocos e livros. Visito o norueguês Statsraad Lehmukuhl que presenteia Portugal com o bacalhau 500 milhões, num gesto que assinala mais de 200 anos de relações comerciais entre os dois países. Admiro a imponência do italiano Amerigo Vespucci, com o seu casco branco e preto, e que me faz lembrar um imenso navio de batalha.

Embora não seja tão imponente como os restantes, o navio que mais gosto de visitar é o Creoula. É impossível não sentir uma ponta de orgulho português, ao entrar no idoso veleiro, inaugurado em 1931. Apesar de ter sido construído apressadamente, em apenas 62 dias, para pescar nas águas geladas da Groenlândia, agora cumpre uma honrosa missão para a qual não tem qualquer tipo de pressa e possui toda a paciência do mundo: promover o treino de vela e mar junto dos jovens. Ao passar pela cozinha do navio reparo no cozinheiro que descasca batatas para uma enorme panela: já é hora de almoço e a fome aperta.

Deixo o veleiro português, com a intenção de recuperar energias num dos muitos restaurantes e bares à beira-mar, quando esbarro num pirata real… ou quase! Estava vestido a preceito no cais, a cunhar moedas para quem quisesse levar consigo uma recordação dos 60 anos da regata. “Éramos três, mas um dos meus colegas desmaiou com o calor, e a menina que trabalha connosco foi acompanhá-lo ao pronto-socorro”. Desejo as melhoras rápidas do companheiro, e agradeço pelo tesouro cunhado que me entrega. “Obrigada eu!”, responde-me enquanto me afasto. Mas afinal, quem disse que os corsários não sabem ser cavalheiros?… 😉

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s