A Turquia que me conquista

“Precisa de ajuda?”, ouço perguntar quando estou parada no meio de Istambul a consultar o mapa da cidade. Foi assim que as conheci: Elif e Saray, duas jovens guias, que fazem parte de um programa de voluntariado em Istambul para auxiliar turistas. Explico-lhes que é o meu último dia na cidade, e que depois de ter visitado os pontos principais (Basílica de Santa Sofia, Mesquita Azul e Palácio de Topkapi) gostaria de visitar mais alguns monumentos e museus, embora esteja indecisa na escolha. De imediato, auxiliam-me na decisão, e como opto por visitar a Cisterna da Basílica e o Museu de Arte Islâmica, oferecem-se para esperar por mim à saída do primeiro lugar e fazer-me companhia no segundo.

A cisterna é um local mágico: as colunas que se estendem no subsolo da cidade são iluminadas por luzes da cor do fogo, e a água é povoada por carpas que se movimentam na penumbra como seres fantasmagóricos. Se tivermos em conta a época em que ocorreu, a história do local é ainda mais fantástica: construída no século VI pelo imperador romano Justianus, para abastecer os palácios imperiais bizantinos, a água que aqui se encontra é originária de um reservatório situado a 19 km de distância, trazida através de um sistema de aquedutos!

Uma das colunas tem esculpidas lágrimas, em honra daqueles que morreram na construção do espaço, enquanto duas cabeças de medusa jazem aos pés de dois pilares. “Sabe porque é que as cabeças estão viradas ao contrário?”, pergunta-me um visitante. E perante a minha resposta negativa: “A menina não fez o trabalho de casa! Foram colocadas dessa forma porque segundo a crença popular, ficavam impedidas de fazer o mal”. Contudo, os motivos pelos quais as medusas ali se encontram permanecem desconhecidos, e se há quem afirme que servem para proteger o local das más energias, outros afirmam que estas foram reaproveitadas de uma construção do Império Romano.

No final da visita, encontro as amáveis guias à saída da cisterna: “Gostou?”, pergunta Elif. Quase não preciso de responder, pois o meu sorriso não esconde o que me vai na alma, e assim, continuamos o passeio por Istambul. Enquanto caminhamos em direção ao Museu de Arte Islâmica, tento saber um pouco mais sobre o programa em que participam as jovens que me acompanham: “Este programa de voluntariado existe há cerca de sete anos, e muitos de nós participam desde o início. Mas existem jovens de todas as idades, desde os 13, aos 22 anos”. Quando as inquiro acerca das motivações respondem em uníssono: “Fazer amigos, conhecer pessoas de outras nacionalidades, e sobretudo aprender outras línguas”.

Entramos no Museu de Arte Islâmica, situado no palácio restaurado de Ibrahim Paxá que protagonizou uma trágica história de amizade: vizir e amigo do sultão Solimão I, foi assassinado a mando deste último por lutas de poder e intrigas da sua esposa Roxelana. O espaço surpreende-me pela variedade de artefactos que contém: exemplares de caligrafia islâmica, cujos detalhes me deixam maravilhada, gigantescas tapeçarias coloridas, portas trabalhadas, peças de cerâmica variada em tons de mar tropical, ou armários destinados a guardar o livro sagrado do islamismo. À medida que observo as peças, as guias explicam-me que o Corão deve ser sempre guardado num local adequado, e alguns dos motivos que adornam muitas das peças: a tulipa símbolo de Alá, e a rosa símbolo de Maomé.

Ao observar um espelho decorado com motivos florais, Elif diz-me que esta poderá ser uma boa opção caso deseje comprar uma recordação nas lojas de souvenirs espalhadas pela cidade, mas aconselha-me a evitar aqueles enfeitados com jóias, pois não são tradicionais. Conto-lhes que fui ao Grande Bazar com intenção de adquirir lembranças para a minha família, mas que a confusão me impediu de o fazer. “Aquele mercado é destinado a turistas, nós nunca lá vamos. Por acaso, a minha irmã faz anos e vou à Praça Taksim para ver algo para lhe oferecer. Não quer vir comigo?”, convida Saray.

E assim, acabo o final do meu dia entre a praça Taksim, e a gigante Avenida Istiklal. A fervilhar de gente, e com bastante comércio, esta última poderia ser confundida com a lisboeta Rua Augusta, excepto por um pormenor: um eléctrico centenário, vermelho e branco, com assentos em couro, de janelas e portas em madeira envernizada, que percorre a via em toda a sua extensão. “Nesta rua também se encontra a segunda estação de metro mais antiga do mundo, chama-se Tünel!”, informa-me Ali, amigo de Elif e Saray, que entretanto se junta a nós.

Percorremos os 1.4 km da multicultural avenida cosmopolita, rodeada por cafés e restaurantes intimistas, igrejas, sinagogas, mesquitas, boutiques, embaixadas, livrarias, galerias de arte, bem como por vários edifícios históricos. O tempo voa e o nosso estômago começa a acusar a energia gasta a passear, pelo que fazemos uma pausa para jantar Kumpir: uma popular comida de rua que consiste em batatas assadas no forno, às quais se juntam uma variedade de recheios à nossa escolha (milho, ervilhas, alface, pickles, azeitonas, beterraba, iogurte, couscous, ou maionese).

A noite nasce e decidimos regressar. Apanhamos o eléctrico centenário, onde as crianças se penduram envoltas em riso, e a um ritmo tranquilo vamos avançando em direcção à Praça Taksim, enquanto o motorista toca a campainha para abrir caminho entre a multidão. Chegamos ao coração da Istambul moderna, onde uma multidão agita bandeiras da Turquia, em redor do Monumento Anıtı Cumhuriyet que comemora a formação da República. Num ecrã gigante passa um discurso patriótico que inflama os corações daquele que o escutam. “São os resquícios de uma manifestação pacífica contra o terrorismo que aqui ocorreu há três dias atrás, e que mobilizou milhares de pessoas. Os transportes encheram tanto que era quase impossível cá chegar”, diz-me Ali.

Observo as bandeiras escarlates que dançam ao vento e penso que no fundo todos queremos o mesmo independentemente da nacionalidade: paz de espírito e oportunidade de sermos felizes. Ao olhar para os meus companheiros de passeio, consigo ver os seus sonhos de abrir um canal de televisão, serem cirurgiões, ou hospedeiras de bordo e viajar pelo mundo inteiro, elevarem-se acima de qualquer instabilidade política, ou receio. E nesse momento, vejo a verdadeira Turquia que me conquista, e me deixa tanta vontade de a conhecer melhor.

 

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