Istambul: a cidade das Águias Negras

“Tive um hóspede português no hostel. Era do Benfica e como sou adepto dos Besiktas, um clube turco conhecido pelos ‘Águias Negras’, fomos ver um jogo juntos”, revela Sinan, enquanto tomo o pequeno almoço no hostel que gere. Conversa puxa conversa, e revela-me a complexa situação do país, que é bastante mais complicada da que é veiculada na comunicação social. Assegura-me porém, que é bastante seguro passear por Istambul e traça-me um itinerário, que me ajudará a tirar o melhor partido possível da minha curta estadia de 24 horas. Não se engana: nunca me sinto insegura e adoro cada minuto do dia!

No centro histórico de Sultanahmet, começo por visitar a Basílica de Santa Sofia, com a sabedoria e mistura das três religiões que albergou (já foi uma igreja ortodoxa, igreja católica romana e uma mesquita). Aqui, imagens santas e mensagens religiosas em escrita árabe coexistem em harmonia, e no momento em que admiro a sua cúpula gigantesca (símbolo máximo da arquitectura bizantina) entendo facilmente o motivo pelo qual esta era a maior catedral do mundo, quando foi concluída em 537.

De seguida, dirijo-me à Mesquita Azul, onde me é entregue um chador que visto para visitar o espaço. O imponente edifício nasceu em 1606, fruto da ambição do sultão Ahmed I que quis construir uma mesquita maior, e mais bonita do que a Basílica de Santa Sofia. Embora seja difícil avaliar qual das duas merece ser coroada rainha, encanto-me com os mosaicos em tons de mar, e vitrais arco-íris que adornam este local de oração.

A próxima etapa do dia consiste em visitar o Grande Bazar e o Mercado de Especiarias, para onde me encaminho. Istambul é uma cidade que se palmilha facilmente, e na qual a história espreita em cada esquina: só na Praça Sultanahmet, onde se situava o Hipódromo de Constantinopla, é possível observar vários artefactos, entre os quais a Coluna Serpentina (trazida de Delfos, na Grécia, onde foi erguida para comemorar a vitória dos gregos sobre os persas no século V a.C.), o Obelisco de Teodósio (originário do Egipto), ou a fonte alemã (construída em 1900, para comemorar a visita do imperador alemão Guilherme II a Istambul).

De monumento em monumento, depressa chego ao meu destino: o mapa da cidade que possuo guia-me fielmente, e qualquer informação adicional é fácil de obter através de jovens guias voluntários, identificados com uma t-shirt azul contendo a frase “Ask me”. De imediato, percebo que ambos os mercados são muito movimentados, e relativamente perto um do outro.

Uma vez lá dentro, sou abordada insistentemente pelos vendedores que me ‘oferecem’ roupa, jóias, candeeiros tradicionais, especiarias, as famosas gomas conhecidas por delícias turcas, frutos secos, e as tradicionais baklavas, na forma de pequenos cubos de massa folhada adocicada. Contudo, nem o ‘assédio’ consegue retirar o valor da experiência, e assim no momento em que deixo o local para almoçar, ainda estou hipnotizada pela mistura de cores, sons e cheiros: na Turquia a maior parte dos doces são confeccionados com pistachos, figos, fruta variada e regados com bastante mel, cujo aroma paira no ar e nos adoça os sentidos.

Termino o dia com uma visita ao Palácio de Topkapi, símbolo do império Otomano e situado no promontório denominado Cabo do Serralho. Erguido a mando de Mehmet II em 1453, pouco depois da conquista da Constantinopla, este lugar grandioso foi residência de sultões durante quase quatro séculos de opulência. O espaço é um complexo gigantesco constituído por quatro pavilhões, e pelo lendário Harém do Sultão, onde eram mantidos as mulheres, concubinas, filhos, e mães dos sultões, distribuídos em mais de 400 quartos.

Ao percorrer os vários pavilhões, separados por pátios e jardins frondosos, vou observando os azulejos de diversas tonalidades, as arcadas douradas, e o luxo que emana em cada esquina. Nas diversas salas estão expostos talheres, porcelanas chinesas oriundas da Rota da Seda, jóias (aqui se encontra um dos maiores diamantes do mundo), peças de cerâmica, roupas e algumas relíquias (como os pêlos da barba, ou a marca do pé do profeta Maomé), que me transportam a uma época na qual este lugar era uma ‘cidade’ dentro de Istambul que albergava 4000 pessoas. Meditando neste facto, caminho entre rosas cor de sangue até me deter num miradouro com vista para o Bósforo.

Aqui, admiro o vaivém das embarcações entre o Mar de Mármara e o Mar Negro no final de tarde, e despeço-me daquela que em tempos já foi a capital mais sumptuosa da Europa. Constantinopla já não existe, mas a sua memória mantém-se, mais vívida do que nunca, no corpo da bela Turquia. Logo à noite quando embarcar no avião que me levará para longe, guardarei as lembranças deste dia na alma. Todavia, prometo regressar e retomar a descoberta desta linda localidade, onde ‘voam’ Águias Negras.

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