Professores, os incentivadores de convicções perdidas

Conheci a Professora Barbara numa conferência sobre o ensino superior em Birmingham e simpatizei logo com ela, pelo sorriso fácil e por me ter feito sentir bem-vinda. Conversa puxa conversa, fico a saber que é da área de antropologia e que trabalha com estudantes de ciências da saúde, na mesma universidade.

Quando a indago sobre o facto de existirem alunos de tantas nacionalidades a conviver na mesma escola, confessa-me que essa é uma das suas lutas: fazer com que os diferentes grupos se misturem e assim, aprendam a conhecer várias culturas. “Estes alunos serão futuros médicos e enfermeiros. Se não se expuserem a outras realidades, como saberão lidar com os pacientes correctamente?”, pergunta-me.

“Estudei os efeitos da guerra, e outros eventos traumáticos, nas mulheres da Somália para a minha tese de doutoramento. Muitas delas sofreram grandes abusos, e não falaram com ninguém sobre isso por terem medo de sofrer severas represálias. Em vez disso, fecharam-se e aprenderam a desconfiar do mundo”, continua ela. “Portanto, dou sempre este exemplo aos meus alunos: uma mulher da Somália chega à consulta e tem medo que lhe toquem, ou recusa-se a despir. Depois pergunto como agiriam. Será que eles saberiam entender o que ela passou e colocar-se na pele da outra pessoa?”.

Reflito sobre a questão durante momentos e não resisto ao impulso de dizer que deve ter sido muito custoso ter tido contacto realidades culturais tão duras. “Houve uma altura em que pensei seguir um caminho mais fácil. Mas na altura de escolher, a minha orientadora, disse-me que só me ajudaria se optasse por um rumo mais exigente”, confessa-me Bárbara e acrescenta as palavras da tutora, que lhe ficaram para sempre gravadas na memória: “O problema é que as pessoas perderam as suas convicções”.

No final da conferência, concluo que nunca tive um exemplo tão claro de que o papel dos professores não é somente transmitir conteúdo curricular pré-formatado: o papel dos docentes é também formar cidadãos com bons valores e incentiva-los de lutar pelas suas convicções. Porque afinal, ensinar é também formar cidadãos que tornem este mundo num lugar melhor.

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