A presença judaica em Lisboa

Partimos da Praça do Comércio, em direcção à Igreja de Santo António, às 10h em ponto. No início do percurso cruzamo-nos com um casal de noivos, que posam para um fotógrafo com o Arco da Rua Augusta em pano de fundo. “Boda molhada, boda abençoada”, comenta alguém referindo-se à chuva que entretanto começa a cair, e que nos recorda da chegada do Outono. “O nosso passeio pela Lisboa judaica também vai ser abençoado”, responde a nossa guia Inês, da agência Time Travellers, sorrindo.

Caminhamos em passo rápido e, face à insistência da chuva, pedimos abrigo à igreja do padroeiro de Lisboa. Aqui, Inês aproveita para nos fazer uma confissão: não iremos ver nenhuma judiaria durante a nossa visita. “Os terramotos de 1531 e 1755 destruíram os bairros de judeus existentes, e mesmo as representações visuais históricas são escassas”. Apenas uma reprodução de Lisboa mourisca em 1147 (ano do cerco de Lisboa e sua consequente reconquista aos mouros) da autoria de Jaime Barata nos permite visualizar como seria então a cidade das Sete Colinas vestida de branco, com uma judiaria fora do conforto das suas muralhas.

Contudo, apesar de aqui não existirem marcas tão fortes da presença judaica como em Belmonte ou Évora, é importante relembrar a passagem de um povo pela capital de um país, que tanto beneficiou com a sua assistência no estímulo do conhecimento. Reveste-se assim de extrema importância visitar os locais das quatro judiarias que aqui existiram: a Judiaria Grande (ou Velha), a Judiaria Pequena (ou Nova), a Judiaria da Pedreira e a Judiaria de Alfama.

São Pedro dá-nos tréguas e portanto, deixamos o nosso porto seguro apressando passo até ao primeiro bairro do nosso itinerário: a Judiaria Grande, situava-se entre as igrejas de Santa Madalena e Nicolau e os primeiros testemunhos da sua existência datam do século XII. Os relatos de Inês ajudam-nos a desbravar as brumas da memória deste povoado, que possuia sinagogas, tribunal, escolas, e hospitais que serviam os judeus que representavam cerca de 10% da população de Lisboa (entre 30 a 50 mil pessoas). Letrados e amigos da ciência, contavam-se entre eles grandes comerciantes, médicos, advogados e cartógrafos, que foram impulsionadores da economia da cidade.

Continuamos a andar, por uma Lisboa cada vez mais movimentada: os pingos de água que teimaram em nos acompanhar no início do passeio, também lavaram as fachadas dos edifícios e puxaram lustro à Igreja da Conceição Velha, fazendo brilhar os anjos e cordas em estilo manuelino. “A placa informativa que aqui está é enganadora! Esta igreja nunca foi uma sinagoga”, exclama Inês explicando-nos logo de seguida a origem do mal-entendido: “Este é o local da antiga Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, que ruiu com o terramoto de 1755. Na altura, D. José cedeu o edifício aos frades da Ordem de Cristo porque o seu templo religioso (Igreja da Conceição Velha) que havia em tempos sido uma sinagoga tinha desabado também”.

Explicações dadas, rumamos agora em direcção a Alfama, e ao passar pela Travessa do Chafariz paramos para admirar o Chafariz de El-Rei. Este fontanário foi construído no século XIII, com vista a aproveitar a riqueza das águas de Alfama, mas as suas nove bicas foram objecto de verdadeiras brigas de faca e de alguidar causadas por diversos abusos e vendas ilegais do precioso líquido. Assim, com vista a trazer alguma paz a esta fonte de vida, foi atribuída a exclusividade de cada bica a um grupo social, numa postura camarária publicada pelo senado em 1551 e que acentuava ainda mais as desigualdades daquela altura.

Deixamos as disparidades de época para trás e continuamos pelo largo que se estende à nossa frente. De repente, e como se alguém gritasse “Abre-te Sésamo!”, deparamo-nos com uma estreita passagem que se abre diante nós no intervalo das casas: ingressamos pois, nas Escadinhas do Terreiro do Trigo e desembocamos na Rua da Judiaria.

Chegamos assim, a um dos poucos bairros não atingidos pelo terramoto de 1755, e que serviu de berço à Judiaria de Alfama. Aqui ainda é possível ver portas de habitação marcadas com a estrela de David, e imaginar como seria a vida naquela época. Os judeus oriundos da Judiaria Grande que aqui chegaram no século XIII estavam obrigados ao recolhimento obrigatório ao toque das ave-marias, ficando deste modo confinados ao arruamento da Rua da Judiaria e suas envolventes (Largo de S. Rafael e o Beco das Barrelas) ao anoitecer.

Apesar de ainda no reinado de D. Fernando terem conhecido a mão pesada da coroa portuguesa, com o pagamento de 50 mil libras de ouro por aqui terem construído uma sinagoga em 1373 sem autorização régia, foi no reinado de D. Manuel que os residentes deste bairro experienciaram tempos ainda mais conturbados: em 1496, motivado por uma união com a dinastia espanhola, o rei pondera expulsar os Judeus do seu reino.

Porém, reconhecendo a importância deste povo para Lisboa, Dom Manuel decreta que todos os judeus se convertam ao cristianismo e manda extinguir as judiarias da cidade. Como resultado a maioria dos judeus passa a manter uma vida dupla como cristãos-novos, usando pequenos truques para disfarçar o não consumo de carne de porco (comendo farinheira em vez de alheira), ou o jejum no Dia do Perdão (simulando problemas de estômago e comendo pão ázimo prescrito por médicos de conluio com a sua causa). Aqueles que não se converteram viram os seus filhos serem levados para serem criados por outras famílias sob a fé cristã.

Sentimos a dor da separação destes pais enquanto entramos na etapa final do nosso passeio e caminhamos em direcção aos Restauradores. Porém, antes de alcançarmos a nossa meta fazemos pequeno um desvio até à Rua de São Julião para recuarmos até à fundação da Judiaria Nova, ali inaugurada em meados de 1317 em pleno local de construção naval. Os judeus que se instalaram neste bairro haviam sido expulsos da Judiaria da Pedreira, nas imediações do Largo do Carmo, mas a paz neste local também foi de curta duração, uma vez que em 1370 foi mandado demolir por D. Fernando. Percebemos assim, que a história deste povo na cidade das sete colinas, sempre foi de constante adaptação e tormenta.

Chegamos ao ponto final do nosso itinerário: o Largo de São Domingos, palco do massacre de 1506, momento em que a intolerância religiosa atingiu o seu limite. Quando um cristão-novo que assistia à missa, no convento de mesmo, nome tentou explicar em vão que o milagre do rosto de Cristo iluminado no altar era apenas uma ilusão de óptica causada por um reflexo de luz. Cegos pela seca, fome e peste que assolavam o país, os fiéis exaltaram-se e iniciaram uma matança de três dias que resultou no assassinato de 3000 cristãos novos acusados de serem a causa de todos os males da época.

Um memorial com a estrela de David e um muro com a frase “Lisboa, cidade da Tolerância” escrita em 34 línguas relembram o ataque anti-semita e a importância da liberdade religiosa. Afinal, esta foi a data que marcou o declínio do conhecimento em Portugal: no seguimento do clima de crescente anti-semitismo e do estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício (em 1540), muitas famílias judaicas fugiram ou foram expulsas do país, levando consigo preciosos saberes que países como a Holanda acolheram.

Ao terminar a visita guiada despeço-me de Inês e vou com Zélia, uma colega de passeio, à Igreja de São Domingos. Ao passar pela sua fachada momentos antes, não havia imaginado que o seu interior havia sido consumido décadas antes por um incêndio de grandes proporções, como se reflectisse os tempos tumultuosos que testemunhou. Mas as mesmas chamas que aqui deflagraram, foram também as responsáveis pela beleza ímpar que mantém até hoje: um tecto delicado em tons de salmão, contrastante com o negrume das colunas que o suportam.

A escuridão da noite, de mãos dadas com a beleza das estrelas. William Shakespeare terá dito um dia que “A adversidade põe à prova os espíritos”. Por isso, podemos pensar que a Igreja de São Domingos não é mais do que a encarnação do povo judeu, dando razão ao poeta e mostrando a sua capacidade de superação ao passar por qualquer teste com uma alma ainda mais forte.

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