Adeus Quénia!

“Mas porque é que vendem espelhos no meio da estrada?”, pergunto espantada com a quantidade de homens que circulam a pé, por entre o trânsito caótico da hora de ponta, carregando consigo estas mercadorias. “Porque não haveriam de o fazer? As pessoas precisam de espelhos em casa!”, responde David, o guia que me levava até ao aeroporto para a minha viagem de regresso a Portugal.

Depois de sete dias no Quénia, já estava a ficar habituada às peculiaridades do país. No dia seguinte à minha chegada tive o primeiro choque de realidade, assim que saí do hotel: havia aterrado de madrugada em Naiorobi na noite anterior, e quando finalmente tive oportunidade de ver a cidade à luz do dia achei que o seu centro se assimilava uma qualquer capital europeia… não fossem os enormes marabus (aves necrófagas da família das cegonhas) que sobrevoavam as nossas cabeças.

Os dias seguintes apenas serviram para acrescentar uma quantidade de situações inusitadas à lista, especialmente em termos rodoviários: os sinais luminosos serem ignorados nas horas de maior tráfego, e a circulação ser inteiramente regulada por polícias sinaleiros (confesso que me fez confusão ver carros a parar nos semáforos de luz verde e a avançar nos vermelhos); os táxis serem motas em vez dos típicos automóveis caracterizados a que estamos habituados em Portugal; as motorizadas que transportam todo o tipo de artefactos, desde sofás a canos que se arrastam pela estrada; ou os pintalgados mamatus, autênticas discotecas sobre rodas que são a última moda entre os jovens.

Sabia de antemão que no Quénia o sentido de circulação era feito pela esquerda, e já ia preparada para alguma confusão inicial nas viagens de carro. Contudo, não estava preparada para o que encontrei: uma condução totalmente desordenada, em que vale de tudo para fugir às intermináveis filas de trânsito, desde circular pelas valetas, até conduzir em contramão. Durante o meu percurso pelo país presenciei vários acidentes (nenhum deles com gravidade), e fui testemunha de uma tentativa desesperada do governo para reduzir a sinistralidade rodoviária, através da exposição de um carro acidentado, colocado estrategicamente na berma da estrada com a indicação “Não termine assim, ABRANDE!!!”.

Agora, enquanto estamos parados no trânsito observo um mamatu que serpenteia por entre o trânsito e, estupefacta, reparo no seu interior repleto de ecrãs plasma. “Até na porta do condutor existe um ecrã!”, exclamo. “Eu também tive um autocarro destes em tempos”, revela-me David. “Foi uma forma que o governo do Quénia encontrou de rentabilizar a sua frota de autocarros públicos que estavam em decadência. Vendeu os veículos a particulares, que os modernizaram e têm liberdade para estabelecer as suas tarifas. Está atribuída uma zona de circulação a cada um, mas têm podem personalizar o seu percurso dentro de cada área”, continua ele. “E o que aconteceu ao teu mamatu?”, indago. “Tive de o vender, não era suficientemente popular entre a juventude… custa cerca de 10 000 euros tornar um autocarro atraente. Até existe um concurso para eleger o mais famoso!”.

Subitamente, compreendo que os jovens do Quénia não são assim tão diferentes dos portugueses: têm as mesmas ambições de serem conhecidos, estarem na moda, ou frequentarem os locais mais em voga. Países diferentes e no entanto, aspirações iguais. Afinal, estamos na era do facebook e das novas tecnologias que mudaram a juventude. Todavia, aqui ainda vejo rapazes a empurrar aros com arame, à semelhança da brincadeira que ocupava as horas de infância do meu pai. E no meio do trânsito, também vislumbro homens a venderem fisgas que fazem as delícias das crianças quenianas. E torno a ver vendedores de espelhos…

“Isto é perigoso! Se um espelho se partir são sete anos de azar!”, exclamo perante o ar de interrogação de David. “É uma superstição!”, explico. “Nunca tinha ouvido falar”, responde-me atónito. “Vocês são um povo tão estranho…”, dizemos os dois em coro para logo a seguir nos desatarmos a rir à gargalhada. Oh… vou ter tantas saudades do Quénia!

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