Vida em saldos

Às vezes a decisão de viajar pode acontecer nas alturas mais inesperadas. Como uma ida aos saldos. Onde me perco entre o caos de pessoas que remexem freneticamente nas prateleiras das lojas, e dou comigo a pensar se preciso de mais uma camisola. Nesse momento, começo a olhar para trás e interrogo-me se as minhas recordações mais queridas estão relacionadas com bens materiais.

Na verdade, a resposta é negativa. Olhando para o meu passado não me recordo daquele dia bestial em que comprei um casaco novo. Mas lembro-me da excitação de alcançar o cume do Pulpit Rock, bem como da minha respiração ofegante, misturada com o vento, a chuva, e uma alegria que não cabia no peito quando ao olhei para o rio Lysefjord do topo do mundo.

Também não guardo na memória o dia em que calcei pela primeira vez aqueles sapatos comprados só porque estavam com 50% de desconto, apesar de já ter uns quase iguais. Mas ainda vejo a expressão tão humana do gorila que me olhou nos olhos no Bornéu, ainda sinto a minha mão a chapinhar na água fresca dos lagos de Plitvice na Croácia, ainda tenho em mim o toque inocente da menina Maasai que me deu um high five no Quénia, e ainda guardo a sensação dos meus pés descalços a caminharem sobre o chão da Mesquita Azul na Turquia.

De igual modo, consigo ver as expressões das almas que se cruzaram comigo, e recordo os diálogos intensos que tivemos na despreocupação de viajantes que não podem perder tempo com conversas de circunstância. Ainda mantenho contacto com alguns, e sei que conseguiram finalmente o emprego desejado, terminaram a tese de mestrado, encontraram a sua vocação, ou quebraram barreiras e estão finalmente a viver com a namorada após um ano de relação à distância.

São estas as histórias que quero contar aos meus netos. Histórias de experiências inesquecíveis, de aprendizagens, de superação, de partilha. É esta a mensagem que quero transmitir com a minha vida. Não devo ser a única a pensar o mesmo porque aqueles com quem me cruzei ao longo das minhas jornadas continuaram a viajar.

Tal como eu. Recordo um email que uma colega me enviou na mesma manhã, dando a sugestão de um desktop para o meu computador, com o tema: “Feliz é quem começa uma nova aventura”. E subitamente, soube exactamente o que comprar. Acedo à página web de uma companhia aérea e reservo um bilhete de avião para um destino há muito ambicionado.

Acedo às definições do computador, e no meu ambiente de trabalho aparece uma menina entre nuvens lilases, um avião de papel e um calendário de Janeiro. Uma menina feliz por ir começar uma nova aventura. E os trapos? Ora, esses ficaram na loja… porque a minha vida, essa não está em saldos.

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