Mindfulness

“Acho que está a ir na direcção errada!”, exclama o passageiro sentado ao meu lado no Vaporetto, quando lhe pergunto porque é que estamos a demorar tanto para chegar à paragem Fondamente Nove, em Veneza. O sol brilha e estou de chapéu aberto. Deveria estar a ir para o aeroporto mas, aparentemente, estou a ir em sentido oposto.

Como é que cheguei a este ponto? Bem, deixem-me recuar um par de dias, até à altura em que decidi visitar a pequena ilha de Burano na lagoa de Veneza. Tinha ouvido falar da colorida localidade piscatória e pensei que seria o local perfeito para um passeio: quem não precisa de um arco-íris na sua vida?

De acordo com a lenda, a população pintou as suas casas com cores vibrantes de modo a que os pescadores pudessem vê-las mesmo através do nevoeiro denso. Verdade ou mito? Nunca terei a certeza, mas a realidade é que à medida que navego em direcção à ilha, e começo a distinguir os seus contornos por entre a neblina matinal, começo a acreditar na história.

Diante de mim revela-se uma gigantesca cesta de fruta: cerejas, laranja, mirtilos, ananás… quando piso a costa, quero provar todos os sabores! Movida por uma explosão de energia caminho por entre as ruas estreitas, entrecortadas por canais. O sol começa brilhar timidamente, e as casas miram-se nos espelhos de água: têm razão para se sentir vaidosas, uma vez que os seus proprietários são inclusivamente obrigados a pedir permissão legal para alterar algo na sua aparência.

Adicionalmente, o meu passeio mostra-me que a beleza da ilha vai muito para além das suas casas: em cada esquina despontam lojas que vendem peças em renda delicada. São tão leves e brancas que me parecem feitas de nuvens. Eu sei que esta parece uma afirmação peculiar, mas deixem-me que vos diga que tenho algo que apoia o meu argumento: a técnica da execução desta renda chama-se ‘punto in aria’ (ponto no ar)!

Hipnotizada, decido inspeccionar melhor estas maravilhas. La Perla, uma pequena loja na rua principal de Burano é a escolhida para o efeito: “Esse pavão em renda demorou cerca de seis meses para fazer!”, diz-me a dona da loja ao ver a atenção que dedico aos trabalhos emoldurados que decoram a parede do espaço.

Esta é contudo, uma galeria de arte que alberga um talento em declínio. “Os jovens estão sempre com pressa e não querem manter viva a tradição: esta senhora é a mais nova rendeira da ilha”, e com isto a simpática senhora aponta para uma idosa que tece no fundo da loja. Fico impressionada com esta revelação, mas ainda mais com a serenidade da anciã que olha apaixonadamente para o seu trabalho e parece nem dar pela nossa presença. O seu semblante espelha paz interior. Decido levar algo que me recorde deste momento e à saída compro uma sombrinha de renda.

Assim, na manhã da minha partida sou a reencarnação da Mary Poppins! Abro a minha sombrinha e admiro a luz que foge por entre os pontos de renda. Estou tão perdida nesta beleza que apanho o Vaporetto errado. Felizmente, tudo corre pelo melhor e agora, estou pacientemente a desenhar uma paisagem perto de minha casa. O desenho deve demorar cerca de 4h a terminar e irei saborear cada minuto… afinal, Burano ensinou-me que, às vezes, a tranquilidade consiste em aproveitar o presente. Mindfulness!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s