Palácio dos Marqueses de Fronteira: um oásis de história a descobrir

Às 10h em ponto, o grupo estava reunido em frente à porta do Palácio. A tarefa mais fácil estava concluída. O mais difícil é agora, encontrar um idioma comum a todos, e que permita ao guia conduzir-nos através da história das salas que iremos visitar. As hipóteses saltitam: “Quem é que percebe Inglês?”, “Quem é que fala espanhol?”, “Quem é que entende francês?”, pergunta o nosso tutor. E perante a constatação de que um casal de espanhóis compreendia inglês, adivinha-se de imediato a picardia saudável que irá pautar o nosso passeio, quando se ouve a exclamação divertida do guia: “Oh, nunca me tinha acontecido!”.

Face à variedade de nacionalidades presentes a solução encontrada é, portanto, uma visita guiada em inglês e francês. Somos avisados à partida da impossibilidade de tirar fotos no interior da casa, mas a proibição de registar digitalmente as salas que iremos atravessar, só aguça ainda mais o nosso sentido visual: assim que entramos na Sala das Batalhas queremos absorver cada pormenor dos complexos painéis de azulejos que retratam a Guerra da Restauração.

Ficamos a saber, que foram precisamente estas batalhas que valeram a D. João de Mascarenhas o título de primeiro Marquês da Fronteira, como prémio da sua valentia em 1670, e que cinco anos mais tarde seria inaugurado o palácio em cujos azulejos observamos o mesmo a combater um general espanhol. “Estes painéis ilustram a bravura dos portugueses, que lutaram para se libertar do domínio espanhol. Talvez, em Espanha ouçam outras histórias afinal, cada nação gosta de enaltecer os seus”, diz o guia olhando de soslaio para os visitantes do nosso país vizinho.

De facto, os azulejos que revestem várias salas e jardins do Palácio do Marquês de Fronteira não são um caso isolado e sim, um reflexo da restauração da independência em Portugal: a partir de 1640, a nobreza ganhou vitalidade e deste modo, multiplicaram-se os palácios adornados com azulejaria de tradição holandesa. Assim, tal como tivemos oportunidade de observar nas composições que revestem a fachada da casa voltada para o jardim, as cores predominantes dos azulejos eram amarelo, azul, verde e castanho. Contudo, “A partir do século XVII, esta arte começa a ser influenciada pela porcelana chinesa, e as composições apenas em azul e branco tornaram-se moda”, informa-nos o nosso guia.

Despedimo-nos da Sala das Batalhas com a indicação de que poderemos visitá-la novamente por ocasião dos torneios de bridge, que ali se realizam uma vez por mês e seguimos para a Biblioteca. Ah, não são amantes de livros e como tal este espaço não vos desperta curiosidade? Contudo, se virem a paisagem que podemos admirar das janelas deste espaço luminoso talvez mudem de ideias… pois parece-me que descansar o olhar sobre os arbustos geométricos, apreciar a arte que desperta nas estátuas, e saciar a sede de conhecimento nas fontes espalhadas pelo jardim, não seja uma experiência que se queira desperdiçar.

Somos agora, conduzidos aos únicos aposentos onde podemos entrar na ala privada do palácio: a Sala dos Quatro Elementos, e a Sala de Juno, separadas entre si por uma zona envidraçada. Somos avisados para ter cuidado com as mochilas, não se vá dar o caso de haver algum acidente com os objetos pessoais que aqui estão presentes. É que estes compartimentos têm um ar tão intimista que para imaginarmos um serão em família bastava apenas, nas palavras do nosso guia, “um plasma e uma Playstation”.

Terminamos a nossa visita ao interior da casa na Sala de Jantar, cujas paredes estão decoradas com azulejos alusivos a cenas de caça e mitologia, e transpomos uma porta para o exterior, em direção ao Terraço da Capela. A primeira coisa em que reparo são os painéis de azulejos que decoram as paredes da fachada da casa voltada para este espaço, e onde figuram as Sete Artes Liberais: lógica, gramática e retórica, aritmética, astronomia, música e geometria. Em seguida, o olhar demora-se sobre os curiosos detalhes satíricos presentes nos pequenos quadrados de cerâmica que adornam os muros do terraço: macacos em trajes e atividades humanas, que espelhavam a última moda no que toca a ironia, na azulejaria do fim do século XVII.

Continuamos a caminhar, em direção até a uma pequena capela que será anterior à construção do palácio. Olho com atenção para a decoração em volta da pia batismal e distingo pequenas pedras, conchas, vidros partidos e pedaços de porcelana. Perante tal constatação, somos informados de que esta decoração será proveniente de um banquete oferecido ao rei D. Pedro, pois na altura era costume partir no fim da refeição a loiça que havia servido o monarca, para que ninguém mais a utilizasse.

A nossa visita aproxima-se do fim e assim, é-nos dada liberdade total para percorrer os jardins a solo e desfrutar do convidativo sol de Primavera. Rumo ao Tanque dos Cavaleiros, um lago guardado por painéis de valentes senhores, e que algumas teorias dizem representar os Doze de Inglaterra: corajosos homens lusitanos que saíram em defesa de 12 damas inglesas ofendidas. Subo a uma das escadarias existentes nas extremidades do lago, e alcanço a Galeria dos Reis. Aqui, percorro um corredor em tons de mar, ladeado de esculturas que fazem homenagem a vários monarcas de Portugal.

Na companhia de tão ilustres figuras perscruto o horizonte, admirando o contraste entre a modernidade da silhueta urbana de Lisboa e a antiguidade clássica que aqui reina. O Palácio dos Marqueses de Fronteira é um oásis de história que vale a pena visitar, e que nos lembra que existem sempre sítios fantásticos para descobrir em Portugal. E vocês? Aceitam descobrir este belo recanto?

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