A Fazenda de São José

Depois de duas noites em Lima é altura de seguir caminho. Próxima paragem? A vila piscatória de Paracas.

Nos próximos dias viajarei com a companhia Peru Hop. Quando planeei a minha viagem ao Peru, esta pareceu-me a opção ideal: ao comprar um passe para um itinerário à nossa escolha (têm várias opções consoante a duração e os pontos que queiramos visitar) teria direito a transporte com recolha nos locais onde pernoitasse, desconto em algumas hospedarias e hosteis, e oportunidade de reservar tours diretamente no autocarro.

Para além disso, como bónus poderia usufruir de algumas visitas gratuitas durante o meu percurso pelo Peru. A primeira acontece logo na despedida de Lima, com uma subida até ao miradouro do Morro Solar. O que tem este local de especial? Um memorial em honra aos heróis que deram a vida na guerra entre o Peru e o Chile, a estátua do Cristo del Pacífico (o Cristo Redentor peruano), e uma vista da capital do Peru banhada pelo oceano.

“Supostamente esta estátua foi uma oferenda do nosso ex-presidente, mas afinal só fazia parte de um esquema de corrupção. Desculpa, estou a falar demais?”, pergunta o nosso guia. Não Diego​​, não te contenhas porque eu quero conhecer o Peru exatamente como ele é!

Assim, porque para explorar um país também precisamos de conhecer as partes menos boas da história, fazemos mais uma paragem antes de chegar a Paracas. A Fazenda de São José, uma casa colonial do século XVII na cidade de El Carmen, abre-nos as portas. Mas embora a casa seja linda, o seu subsolo esconde um segredo bastante negro…

No pátio interno, umas escadas levam-nos até um labirinto de túneis utilizados para o tráfico de escravos. Infelizmente, no final do século XVII a escravatura era legal no Peru, e os fazendeiros de açúcar e algodão viram nos escravos africanos a mão de obra perfeita para as suas plantações.

Para​ não pagarem impostos sobre os escravos que importavam, construíram túneis que ligavam as suas fazendas até ao porto de Chincha, e que lhes permitiam fazer contrabando de homens. Agora, andamos agachados por este labirinto e os nossos pés pisam os ossos das almas que aqui morreram. Sim, imaginem a minha surpresa quando estava a apontar a lanterna do telemóvel para ver melhor o caminho, e me deparo com uma caveira!

Depois deste momento assustador, e com a nossa visita a terminar, entramos na capela da fazenda. O padroeiro é São Martinho, filho ilegítimo de um nobre espanhol com uma negra alforriada, e que dedicou a sua vida à Ordem de São Domingos. Esta devoção reveste-se de um significado especial, pois por ser mestiço não lhe era permitido ser sacerdote, e na igreja apenas lhe eram atribuídas tarefas menores, motivo pelo qual ainda hoje é representado com uma vassoura na mão.

Dizem que a fé move montanhas. Santo Martinho lutou por aquilo em que acreditava, e isso dá-me conforto e esperança na humanidade. Deixamos São José e chegamos a Paracas a meio da tarde, onde irei observar os esforços peruanos para conservar a vida selvagem.

Uma vez mais, renovo a minha crença na humanidade. Mas essa… é uma história que terá de ficar para amanhã!

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