No Lago Titicaca respira-se paz

O que fariam se estivessem em viagem, e durante uma pausa em que saíram do autocarro para esticar as pernas, este partisse sem vós? Eu fiquei mortificada quando isso me aconteceu, deviam ter visto a minha cara quando ouvi o motor do veículo e me dei conta que iria ficar em terra! Felizmente, a rapariga que estava sentada meu lado deu pela minha falta e o autocarro imobilizou-se um pouco adiante, enquanto eu corria que nem uma louca, com a mochila às costas atrás dele!

Este foi o momento alto da manhã em que viajei para Puno, a localidade peruana que dá acesso ao Lago Titicaca, e não sei se foi devido a esta adrenalina, ou à altitude (3800 m) mas à chegada estava de rastos. Claro que o cansaço e a má disposição não ajudaram na primeira impressão que tive da cidade: a quantidade de habitações em mau estado fez-me recordar uma favela gigante (existem muitas casas degradadas ou por terminar no Peru, devido ao terramoto de 2015 e porque os edifícios inacabados estão isentos de impostos).

Sento-me na entrada do hostel com a cabeça a latejar, e devo estar mesmo com mau ar porque uma senhora da receção vai a correr fazer-me um chá de coca. É remédio santo! No final da tarde já consigo dar uma volta pela cidade, e a má sensação do início do dia começa a dissipar-se: a Praça de Armas tem um ar bastante simpático, assisto a uma demonstração de danças tradicionais no centro histórico, e até o mercado local com a sua confusão de vendedores me fascina.

Não é a cidade mais bonita que visitei até agora​, mas não faz mal pois a razão da minha ida até Puno prende-se com outro fator… explorar o Lago Titicaca e as ilhas flutuantes construídas pelo povo de Uros: reservei uma visita guiada mesmo antes de viajar para o Peru. A expectativa é tal, que nessa noite praticamente não durmo com a excitação, e na manhã seguinte quase não dou pela viagem de barco até à primeira das duas ilhas flutuantes que iremos visitar.

No primeiro ponto de paragem, aprendo mais sobre o modo de vida dos nativos e da construção das ilhas, através de uma demonstração em pequena escala: dois homens mostram como unem blocos de terra com troncos de eucalipto atados com cordas, e posteriormente cobrem-nos com ​canas de totora. As cabanas são construídas em cima destas plataformas flutuantes que são bastante resistentes! Tanto, que até “podemos jogar futebol e volley, mas não basquete porque a bola não salta!”, brinca um dos habitantes. Esta demonstração não demora mais do que dez minutos, por isso fico admirada ao saber que na realidade o processo demora cerca de um ano! Claro que os materiais se vão degradando e, apesar de toda a manutenção, as ilhas têm um prazo de validade de 20 anos.

Contrariamente ao eucalipto que é trazido de Puno, a totora cresce no Lago Titicaca e tem múltiplos usos: para além da construção das ilhas, é utilizada na elaboração das cabanas e barcos de Uros. “Querem dar uma volta no meu Mercedes Benz?”, pergunta um dos habitantes antes de nos ajudar a subir a bordo da sua canoa. Enquanto navegamos calmamente pelo lago, observamos duas crianças que pescam à linha. Admiro a sua agilidade e sou informada que os petizes aprendem este ofício desde bastante novos. Porém, também têm outro tipo de educação: existe uma escola primária numa das ilhas e, segundo o nosso guia, é por pouco que não nos cruzamos com o professor que faz a viagem de Puno até lá diariamente.

No final do passeio, cada um de nós entrega dez soles ao chefe da ilha. É esta verba juntamente com a venda de algum artesanato e as receitas das visitas que ajuda a financiar as necessidades básicas dos habitantes, e ter acesso a alguma modernização: a título de exemplo, os painéis solares que instalaram há cerca de dois anos permitem-lhes ter algumas comodidades como televisão nas cabanas.

Partimos daqui rumo a Taquile fazendo apenas uma curta paragem noutra ilha flutuante para carimbar o passaporte (vão prevenidos se quiserem ficar com esta recordação!) e comprar alguns snacks. A jornada que nos aguarda é de duas horas, mas passa a correr. Vou para o convés apanhar sol, e enquanto troco impressões sobre a culinária peruana com outros passageiros descubro que andei a pronunciar ‘Pollo’ (frango) incorretamente durante o tempo em que estive no Peru: aparentemente, andei a pedir a uma ‘menina da vida’ grelhada! “Oh não, encomendei o almoço mal durante uma semana!”, exclamo desesperada perante a risada geral dos outros.

Ao desembarcar em Taquile são-nos entregues ramos de munha, a planta utilizada pelos habitantes desta ilha para mitigar os efeitos da altitude. O perfume das suas folhas, juntamente com a recompensa que me aguarda no topo da subida que terei de fazer, ajudam-me na caminhada até ao restaurante onde iremos almoçar. À nossa espera está um prato de sopa de quinoa, pão com vegetais e truta grelhada (acabadinha de pescar) acompanhada com arroz.

O local do repasto foi igualmente bem escolhido: saboreamos a refeição numa mesa corrida ao sol, e com vista para o mar. Hummm, que delícia! “Vocês esqueceram-se do protetor solar mas trouxeram vinho?!”, pergunta uma colega, entre risos, quando um casal de holandeses pede um copo e saca uma garrafa de vinho branco da mala.

Reina a boa disposição à mesa, e é com esse estado de espírito que recebemos uma habitante local que nos demonstra o fabrico de champô através de uma planta chamada chukjo. O processo parece simples: esmagar as folhas com uma pedra, filtrar com um pano, juntar água e voilá! “Não existem carecas em Taquilhe!”, diz-nos a simpática senhora enquanto nos dá a cheirar uma tigela com o champô. Cá para nós: tinha um aroma tão agradável que me apeteceu trazer um frasco cheio para Portugal!

Despedimo-nos dos nossos anfitriões e caminhamos até à outra ponta da ilha, onde está atracado o barco que nos levará de regresso a Puno. O caminho está repleto de vistas panorâmicas, casas com flores nas janelas, e anciões sentados a tricotar nos muros (contrariamente ao que estou habituada a ver em Portugal, aqui esta é uma tarefa exclusiva dos homens).

“As pessoas da ilha ainda conservam as suas tradições: existe um hospital mas 70% da população prefere os xamãs aos médicos”, revela-nos o guia. Xamãs?! Aqueles curandeiros que fazem feitiços? Bem, quase isso… segundo o que me é transmitido estes ‘médicos’ têm um método de cura que consiste em colocar porquinhos-da-índia no peito dos pacientes, de modo a que a doença passe para os animais.

Métodos arcaicos? Talvez, mas a verdade é que os habitantes desta ilha têm vitalidade para dar e vender! Seguindo as suas recomendações inspiro folhas de munha enquanto ando, e ao chegar ao barco reparo que a minha respiração continua tranquila, apesar dos quilómetros que andei. Na realidade, sinto-me muito mais calma do que quando cheguei a Puno e parece que de repente, todo o cansaço se dissipou.

As mezinhas não funcionam? Bem, comigo foram tiro e queda! Em Taquile o tempo passa devagar, ao ritmo da natureza. No Lago Titicaca respira-se paz.

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