Limite? O céu!

“Oh moçooo, tira aí uma selfieee!”, pede Thiago em tom de brincadeira a um topógrafo que encontramos no caminho para Aguas Calientes. Porque é que estamos a caminhar pela linha de comboio até esta cidade, quando poderíamos ir de transportes até lá? Ora, porque tudo o que custa vale a pena portanto, queremos que o caminho até Machu Picchu seja um desafio.

É verdade meus amigos, finalmente chegou o momento mais aguardado da minha visita ao Peru: vou conhecer a cidade perdida dos incas. Cheguei no dia anterior a Cusco, e o nervosismo era tanto que nem consegui aproveitar a localidade como deve de ser. Deambulei pelo bonito centro histórico e assisti às comemorações do aniversário​ da cidade, mas a minha mente já estava a processar o que iria fazer no dia seguinte.

Comprei um pacote turístico que inclui o transporte desde Cusco até à Hidroelétrica (ida e volta), uma noite de estadia em Aguas Calientes, três refeições e a entrada para Machu Picchu. Claro, que terei de caminhar da Hidroeléctrica até Aguas Calientes, e de lá subir até Machu Picchu, mas isso são pormenores… De facto, se tivesse mais tempo disponível faria o Inca Trail em cinco dias, mas assim sendo farei a caminhada em apenas dois.

Conheci Thiago, Shelly e Geane na carrinha que me levou até à Hidroelétrica e fui imediatamente desafiada para ir com eles até Aguas Calientes. Confesso que estava um pouco preocupada por ter de fazer esta parte do percurso sozinha já que estava a recuperar de uma intoxicação alimentar, logo foi com agrado que recebi o convite. Agora, à medida que caminho por entre a selva Amazónica, sorrio com as tropelias destes brasileiros que fizeram cinco dias de autocarro para virem conhecer o país dos seus sonhos.

“Se a gente pegasse o trem, não veríamos esta paisagem linda!”, desabafa Shelly quando vemos as copas das árvores refletidas num ribeiro. Bem, para ser sincera tenho que vos dizer que quase desejei ter apanhado o comboio quando tive de passar por cima do referido curso de água, equilibrada nas tábuas da linha do comboio… Nunca gostei de alturas!

Tirando essa parte apreciei bastante o percurso: parei inúmeras vezes para tirar fotos ao comboio azul da Peru Rail (caso se estejam a questionar, com as devidas precauções não é perigoso andar nos carris, pois os comboios anunciam ruidosamente a sua passagem), fiz uma pausa para espreitar os pequenos restaurantes que se escondem no meio da folhagem, e adicionalmente, encontrei caras conhecidas (existe tanta gente a fazer o mesmo percurso que é bastante provável cruzarmo-nos com pessoas que já vimos noutras partes do país). Só que as paragens foram tantas que quando damos conta é quase de noite e temos de fazer o percurso restante de lanterna em punho.

O resto do dia foi destinado a receber instruções dos respetivos guias, fazer check-in nos hosteis (infelizmente, fiquei separada dos meus compinchas brasileiros) e jantar. Dou uma volta de reconhecimento por Aguas Calientes, mas acho-a demasiado artificial. Sabem aquele busto polémico de Cristiano Ronaldo que foi feito para o aeroporto da Madeira? Pois, eu achei as estátuas de incas em bronze espalhadas pela cidade ao mesmo nível…

Depois disso, enquanto descanso no meu quarto e me sinto um pouco triste por não ter ficado com o contacto do trio que me acompanhou na caminhada deste dia, tenho uma surpresa! O recepcionista bate à porta anunciando: “O seu amigo Thiago, está aqui!”. Feliz por voltar a rever aquela malta bem-disposta, galgo as escadas até à entrada do edifício, e juntos combinamos um ponto de encontro às 4h da manhã. Unidos, iremos até Machu Picchu!

Nessa noite, a ansiedade misturada com a intoxicação alimentar que teima em regressar não me deixa dormir. Nem a mim, nem a um pobre rapaz que partilha o quarto comigo. “Precisas de alguma coisa?”, pergunta ele preocupado, depois de eu ter ido ao WC pela enésima vez. Inquieta, resolvo ir até à recepção do hostel para pedir o saco com o pequeno almoço reforçado a que tenho direito, e faço algum tempo na rua até me reunir ao trio maravilha.

A quantidade de pessoas que passa por mim a partir das 3h da manhã começa a ser bastante, portanto, não é com espanto que ao chegarmos ao primeiro posto de controle de Machu Picchu às 4.30h (só podemos entrar às 5h), enfrentemos uma fila de espera considerável. Ainda assim, os guardas são bastante expeditos a verificar os documentos necessários para o ingresso desta multidão (passaporte e bilhete de entrada) e quando damos por nós estamos a subir a escadaria que nos dará acesso às ruínas incas.

“Isto é para expiarmos todos os nossos pecados, força!”, incita Shelly quando olha para mim e vê o ar de uma morta-viva que está prestes a atirar-se das escadas abaixo. Nem lhe respondo… estou demasiado ocupada a amaldiçoar mentalmente os incas, e a atividade sísmica do Peru que contribuiu para que este povo fosse procurar abrigo nas alturas.

Continuamos a avançar enquanto a noite cerrada ameaça tornar-se dia, e quando reparamos estamos praticamente sozinhos no caminho: a multidão foi desaparecendo apressada, empenhada em alcançar o nascer-do-sol em Machu Picchu. Como tempos desesperados pedem medidas desesperadas, tomo a dianteira e tento animar os meus companheiros anunciando que “já estamos muito perto!” sempre que chego ao fim de mais um lance de escadas.

Claro, que repeti isto durante quase meia hora. Sabem a história do Pedro e do Lobo? Pois, quando finalmente alcancei a entrada de Machu Picchu ninguém acreditou em mim até a ver com os seus próprios olhos. Demorámos quase duas horas em vez dos 45 minutos previstos para chegar, mas nada disso importa pois no momento em que pisamos aquele solo inca choramos abraçados!

A paisagem é ainda mais avassaladora do que nas fotos: a frescura das montanhas, a história aos seus pés e o astro-rei a nascer. Como é possível que os conquistadores espanhóis não tenham dado por esta cidade até ao explorador Hiram Bingham a descobrir em 1911? Será que nunca tiveram coragem de subir até aqui, ou desistiram perante o esforço? Quanto a mim, sinto que valeu a pena subir cada degrau só para ver a luz beijar o Templo do Sol. Relaxada, sento-me durante quase uma hora nos terraços relvados, e agradeço a sorte que tivemos com o dia: nem sinal da famosa garua peruana (neblina)!

Porém, a vida real atinge-me como um beliscão, acordando-me deste sonho. O final da manhã aproxima-se e está na hora de nos pormos a caminho, por forma a estarmos às 15h na Hidroelétrica onde nos espera a boleia de volta a Cusco. Para além do mais, temos outras necessidades: só se pode comer, beber, ou ir ao WC fora do espaço (embora se possa reingressar com o mesmo bilhete três vezes no mesmo dia) e admito que preciso de um reforço de energia.

À saída, tiro uma última foto à montanha Huayna Picchu. “São estas experiências que fazem de nós melhores seres humanos”, diz-me Geane. E a verdade, é que depois desta dura etapa física me sinto uma pessoa mais forte! Dizem que o único limite é o que nos impomos a nós próprios. Pois, hoje o meu limite foi o céu!

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