Uma surpresa colorida

Sabem aquelas alturas em que estamos prestes a fazer uma grande asneira, e somos salvos no último segundo? Foi o que me aconteceu no final do dia, quando regressava a Cusco, vinda de Machu Picchu. Fui acordada no autocarro por um telefonema: do outro lado o responsável da agência onde havia reservado um tour no dia seguinte, informa-me que caiu uma ponte e como tal o caminho do passeio está intransitável.

Diz-me que me vai buscar às 3.30h da manhã ao hostel se eu quiser trocar aquele tour por uma ida à Montanha Arco-Íris. Cansada agradeço, mas declino a oferta: estava há vários dias a dormir apenas três horas por noite, e sentia as pernas a latejar do esforço contínuo. Claro, que depois caí em mim: só faltava um dia antes de iniciar o meu regresso a Portugal, e a Montanha Arco-Íris (também conhecida por Vinicunca ou Montanha das Sete Cores) era um sonho antigo. Ligo de novo e pergunto se a oferta ainda está de pé.

Se não o tivesse feito provavelmente, não estaria agora a beber um maravilhoso chocolate quente com quinoa, numa casa familiar, uma hora antes do início do trilho que irei percorrer. Serão cerca de três horas de subida até alcançar o miradouro a 5000 metros de altura, onde irei ver a palete de cores da Vinicunca no seu esplendor, logo há que ter energia para tal: a dona da casa mima-nos, com pão barrado com compota, panquecas caseiras e chá de coca com açúcar mascavado. Que delícia!

Depois deste repasto, sinto-me cheia de energia e quando uma hora depois, a carrinha que nos transporta chega ao início do trilho (a cerca de 4000 metros de altitude) sou a primeira a sair, cheia de vontade de começar a caminhar. Contudo, devo ter um ar demasiado frágil, porque sou imediatamente rodeada por habitantes locais que me acenam com acenam com um ‘facilitador’ de percurso: “Quer alugar um cavalo, menina?”. Confesso que é uma hipótese tentadora, mas não ‘gracias’! Já agora: para os leitores que tenham medo de recusar esta oferta no início do percurso, na dúvida de poderem vir a ter que necessitar dela mais tarde, talvez vos interesse saber que existem cavalos espalhados por todo caminho, e que é possível alugá-los por um preço mais acessível.

Outra sugestão: apesar de esta região ser fria (com temperaturas perto dos zero graus) não abusem na roupa! É que à medida que o corpo começa a aquecer com o esforço da subida, existe a necessidade de retirar algumas camadas de tecido. Pelo menos, é isto que me acontece após a primeira meia hora de caminhada, e puf: lá se vai o quispo. O ideal mesmo, será levar uma camisola de manga comprida e um corta-vento.

Creio que por esta altura se estarão a perguntar: quão difícil é o percurso? Bem, não é perigoso ou demasiado exigente, mas para ser sincera confesso que a meio estou tão ofegante, que penso em me atirar para o chão (sim, estou em baixo de forma…)! Mas depois, olho em meu redor e reparo nas alpacas que pastam tranquilamente nos prados, nos ribeiros que correm brincalhões, na neve que cobre os picos das montanhas em volta, e arrependo-me de sequer pensar em desistir! E as cores? A este ponto, já distingo tonalidades cereja e alface, que ficam mais vívidas consoante as nuvens deixam ou não, o sol sorrir. A frase “O que importa é o caminho não o seu fim”, não poderia ser mais adequada neste momento.

Quanto à subida em si, esta não é muito íngreme, sendo que apenas a parte final é um pouco mais inclinada. É neste ponto, em que as pessoas que vieram de cavalo têm de seguir a pé (ah, pois é, os nossos amigos de quatro patas também têm direito a descansar!) e palmilhar mais uns 200 metros de altura. Agarro-me a todas as minhas forças, nesta parte e não páro até alcançar o miradouro da Montanha Arco-Íris. Em seguida, dirijo-me a um plano um pouco acima, onde existe menos gente. É que apesar de este passeio só ter começado a ser comercializado em 2016, a sua popularidade tem crescido em larga escala, e começa a ser notório o aumento de turistas neste local.

No sítio onde me encontro, tenho vista panorâmica: de um lado observo os contornos da Montanha das Sete Cores, tão vibrantes que parecem ter sido pintados; do outro, poiso o olhar em montanhas cheias de neve e vales a perder de vista. Para vos explicar melhor: sinto que estou a assistir a um espetáculo de fogo-de-artifício!

Depois de 15 minutos a apreciar a paisagem​, dou-me conta que tenho os dedos inchados e roxos. Os efeitos das temperaturas reduzidas e do vento gelado que insiste em soprar naquele local começam a fazer-se sentir. Com medo de me tornar no João Garcia em versão feminina (ai, o meu nariz!) início a descida de imediato, quando reparo num segundo pormenor: não sei de ninguém do meu grupo de passeio!!!

Terei chegado atrasada? Ter-se-ão ido embora sem mim? Eu, e a minha maldita mania de parar em tudo quanto é sítio para tirar fotos. É a vaguear neste tipo de pensamentos que encontro um dos meus guias: feliz, abraço-o e agradeço por não me deixar para trás! “Para trás?! Tu foste a primeira a chegar, parecias o Speedy Gonzalez!”. Só posso crer que a minha rapidez foi um efeito colateral do chocolate quente com quinoa. Isso, e da beleza da paisagem que me deu asas. E por falar em paisagem: o guia explica-me que as lindas tonalidades da montanha resultam dos diferentes minerais que ali se depositaram, camada a camada, durante milhares de anos. É verdade, a mãe natureza não faz nada por acaso!

Tal como o destino. Caso o meu passeio inicial não tivesse sido cancelado, não estaria a escrever esta crónica. E tivesse eu virado costas ao meu fado, recusando esta oportunidade, teria perdido uma das surpresas mais coloridas da minha vida!

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