A cidade arco-íris

Os hosteis e pousadas de Sighişoara estavam completamente esgotados para o último fim-de-semana de Julho. Motivo? A feira medieval que se realiza anualmente e atrai milhares de turistas à cidade. A solução seria alugar um quarto por Airbnb, o que até poderia ser uma vantagem: teria oportunidade de falar com alguém que me explicasse como é viver na localidade que deu à luz Vlad Tepes.

“Sighişoara é muito bonita mas demasiado pequena. Toda a gente conhece toda a gente. Esse foi um dos motivos que me levou a alugar um quarto em minha casa”, confessa Roxanna, a minha anfitriã. E como a conversa flui livremente, fico a saber que o marido da simpática romena foi o segundo motivo para terem começado a receber hóspedes: oriundo do Reino Unido, ter companhia internacional foi o recurso encontrado para colmatar a solidão numa localidade onde a maioria dos habitantes não sabe falar inglês.

Depois de um chá regado a mel e uma hospitalidade sem igual (fui presenteada com ovos biológicos para o almoço e um frasco de compota caseira), despedimo-nos e vamos cada uma à sua vida. Roxanna tem de ir a casa da mãe noutra cidade, e eu decido começar a explorar a cidade medieval.

Do bairro onde me encontro ao centro histórico é um pulinho, e em dez minutos estou a passar pelo portão Catherine que me deixa entrar na cidadela. Assim que passo as muralhas, é impossível não me querer perder nas ruas de cores garridas! As casas pintadas em tons vivos, os cortinados que enfeitam as janelas, ou os vasos de flores que contrastam com as paredes nuas são uma delícia para o olhar. Mas o ponto alto é decididamente, subir à Torre do Relógio e ver um mundo em miniatura a meus pés! Numa das proteções da torre encontro uma pequena placa com uma seta: 7431 km para Nova Iorque. Será uma premonição para a minha próxima viagem?

Não faço ideia, mas a avaliar pela quantidade de pessoas que vejo lá em baixo, a cidade parece-me tão atarefada como a nova-iorquina! A feira medieval encheu Sighişoara de gente que se aglomera na praça principal (Citadel Square) para ver demonstrações de danças tradicionais, comprar artesanato, ou até treinar tiro com arco.

Cansada e a precisar de me afastar um pouco da multidão, decido jantar na Casa do Drácula, um restaurante ao pé da Torre de Relógio, conhecido por ter sido a casa que viu o famoso Vlad Tepes nascer. A comida é servida com requinte e o Sarmale com polenta e molho de alho, são o conforto que o meu estômago precisa. Tanto que aproveito para dar mais uma volta pela cidade e subir as Escadas dos Eruditos (Scholar’s Stairs), uma escadaria coberta, que foi utilizada em tempos medievais para proteger os estudantes na sua ida para a escola, ou os fiéis que seguiam para a igreja no topo da colina (Church on the Hill).

Com o fim do dia acho que é tempo de regressar à casa da minha anfitriã: nunca tive bom sentido de orientação e sei que será mais fácil regressar enquanto ainda não é noite cerrada. Consigo encontrar facilmente o bairro da morada, e penso para mim que estou a fazer progressos até que meto a chave à porta. Não abre… Mas que raio?! Faço mais umas quantas tentativas até que uma velhota sai do apartamento em frente e começa a vociferar uma data de palavras, das quais só entendo: polícia!

Pois é, parece que ainda não foi desta que o meu sentido de orientação melhorou! Depois de um telefonema para Roxanna descubro que afinal, havia entrado no prédio errado… E claro, podem imaginar o que os moradores pensaram quando se aperceberam que havia alguém a tentar abrir uma porta de um vizinho. Felizmente, tudo se resolve! No dia seguinte, não vejo o sol aos quadradinhos, mas sim a beijar as casas da cidade arco-íris antes de partir para a minha próxima aventura. Que surpresas me estarão reservadas?

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À procura do Drácula

O que é que não pode faltar numa viagem à Transilvânia? Uma visita ao Castelo de Peleş, pois claro! Estavam a pensar que iria mencionar o Castelo de Bran, suposta casa do Conde Drácula? Também o visitei, mas não foi o ponto alto do meu dia. Mas já lá vamos!

Primeiro, algumas informações úteis. Pernoitando em Brasov, é possível reservar transporte privado para visitar três castelos num dia: Peleş, Bran e Rasnov. Também é possível ir de transportes públicos (existem autocarros para cada um destes locais) mas para quem tem tempo limitado o transporte privado é mais prático, já que de outra forma não é possível fazer este programa num dia só. Através do hostel onde fiquei hospedada, reservei por 90 lei (aproximadamente 20 euros) um táxi que me transporta, juntamente com três colegas: Katy, Shane e Paolo.

Apesar de não nos conhecermos anteriormente, a empatia foi imediata! Tanta, que a conversa se soltou e foi parar ao nosso condutor Costei, que já não sabia como havia de evitar as nossas perguntas: “Como é a ceia de natal na Roménia?”, “Qual é o seu prato preferido?”. Nós a querer saber mais sobre a vida romena, e ele a fugir das nossas balas, tal como fazia quando era sniper no Afeganistão. Sim, porque essa revelação foi uma das poucas informações que conseguimos arrancar dele. É impressão minha, ou os cidadãos de países que já estiveram sujeitos a regimes comunistas são extremamente reservados?

Chegamos ao Castelo de Peleş por volta das 10h, depois de uma hora de viagem. É-nos dada uma hora e meia para a visita, e confesso que esta é uma desvantagem: aquela hora da manhã, já se encontrava uma pequena multidão alinhada para comprar o bilhete de ingresso e quando finalmente, somos atendidos reparamos que não iremos ter tempo para visitar tudo.

Felizmente, existe a opção de comprar ingresso apenas para o primeiro andar, e é o que fazemos. Uma vez lá dentro, lamentamos a falta de tempo para explorar melhor: todas as salas do castelo têm uma decoração diferente, que vai desde a inspiração veneziana, à árabe. Conseguem imaginar o que é olhar para o arco-íris de cores que emana de um lustre em cristal de Murano para depois, noutro compartimento, observar motivos geométricos que são uma réplica dos encontrados em Alhambra?

Tento registar o máximo de imagens para vos mostrar, mas quando me preparo para tirar fotos à armadura de um cavalo na sala de armas sou avisada: “Comprou o bilhete que dá direito a tirar fotos?”. Pois é, afinal o uso de máquina fotográfica está restringido a quem pague. Ainda assim, consigo contornar as regras em algumas salas, pedindo permissão aos vigilantes.

Deixamos Peleş com vontade de explorar mais e cerca de 40 minutos depois vemos emergir, por entre o nevoeiro que beija as montanhas, as torres do Castelo de Bran. Não vou negar que é uma visão mística, e percebo de imediato porque é que o escritor Bram Stoker se inspirou nele para escrever o romance Drácula. O problema é que este conto é pura ficção e acaba por apagar a verdadeira história do castelo.

Vamos lá desfazer alguns mitos! Primeiro, o homem que deu origem ao personagem Drácula nunca foi um vampiro: Vlad era um cavaleiro cristão que lutava contra o expansionismo islâmico na Europa. Era implacável contra os seus inimigos e sim, empalava pessoas mas nunca bebeu o sangue de ninguém. Aliás, ele era considerado uma espécie de Robin Hood pelo povo romeno, porque protegia os pobres e castigava os ricos.

Mas se ele se chamava Vlad, de onde vem o nome Drácula? Drácula vem de Dracul, que era o apelido do pai de Vlad por pertencer à Ordem dos Dragões (Dracul). E é verdade que Vlad vivia neste castelo? Não, na realidade nem sequer existem provas concretas de que ele tenha passado por lá.

Contudo, o romance de Stoker eternizou este sítio como a casa do Drácula, de tal forma que não conseguimos deambular livremente entre as várias salas! Estamos continuamente a esbarrar com alguém e no final da visita descubro que fiquei sem a carteira… Ainda a procurei mas em vão, pois não pus mais a vista no dinheiro que trazia comigo. Felizmente, não tinha os documentos lá dentro! Juntando isto, ao facto de praticamente não existir mobília dentro do castelo, devo confessar que gostei muito mais de visitar Peleş.

O facto de ter ficado sem a carteira foi atenuado pelo bom humor dos meus colegas e de Costei, que para além de me pagarem o almoço, fizeram os possíveis para me arrancar gargalhadas durante o resto do dia. Visitar a fortaleza de Rasnov também ajudou: do topo avistamos casinhas de boneca com os telhados cereja tão típicos da Roménia, e a floresta envolta no nevoeiro.

“Diz carteiraaa!!! “, grita Paolo enquanto me tira uma foto. Coincidência ou não, a foto é uma das melhores que tenho até agora da viagem. Quanto ao Drácula… Esse continua desaparecido com o meu porta-moedas, na bruma da Transilvânia!

No coração da Transilvânia

Quais as primeiras impressões que tive de Brasov? Cor. História. Tradição. Para mim, nem o letreiro à Hollywood com o nome da cidade no cimo do Monte Tampa, e que tanto destoa da paisagem, consegue estragar a beleza desta localidade da Transilvânia.

De qualquer maneira, este letreiro deve ser bem melhor do que ter tido a palavra Estaline ‘recortada’ na vegetação na década de 60. “Ainda bem que já não está lá!”, desabafa a guia Simone, que nos acompanha numa Walking Tour (visita guiada). Contudo, apesar de o letreiro ter desaparecido, os vestígios da era comunista que mudaram o nome da cidade durante uma década ainda continuam presentes em cada esquina.

A começar pela igreja de São Nicolau: imagino o espanto do actual padre, quando lá encontrou centenas de livros deixados pelo seu predecessor, escondidos num compartimento secreto. Numa era em que a religião era proibida pelo comunismo, esta foi a única maneira de salvar tanto conhecimento da fogueira do comunismo.

A religião é aliás, algo impossível de dissociar desta cidade: um dos seus marcos é precisamente, a colossal Igreja Negra, que recebeu este nome depois de um incêndio ter escurecido as suas paredes. E só para terem uma ideia da sua grandiosidade: o edifício religioso em estilo gótico tem lotação para 5000 pessoas! Ora, se tivermos em conta que na altura da sua construção, há 500 anos atrás, apenas existiam 2000 habitantes na cidade esta basílica ainda nos merece mais respeito…

Brasov é usada como base para visitar vários pontos de interesse na zona da Transilvânia (como a cidade muralhada de Sighişoara, o Castelo de Peles, a cidadela de Rasnov, ou o Castelo de Bran que inspirou o romance do Conde Drácula) mas à medida que a descubro com a ajuda de Simone, acho que por si só merece ser explorada! Algumas das razões para perder tempo aqui são a pitoresca praça principal onde podemos provar os melhores pratos da região no restaurante La Ceaun (os rolos de couve recheados de carne – Sarmale – com polenta são de comer e chorar por mais!), a vista panorâmica do teleférico sobre a cidade, ou percorrer a terceira rua mais estreita da Europa (Strada Sforii) e verificar se conseguimos esticar os braços.

Confesso, que não resisti a fazer este teste quando lá passei, mas o resultado era mais do que previsto… É que a rua foi construída de forma a ter apenas largura suficiente para deixar passar um bombeiro com dois baldes de água de cada lado! Na verdade, esta passagem só foi aberta para facilitar a vida dos protectores da cidade no século XVII. Quem diria, que se iria tornar uma atracção turística?

Outro aspecto que torna Brasov única, é o facto de ter sido construída dentro de muralhas, embora hoje em dia só possamos ver as suas ruínas. E não… Winter is not coming! (os fãs da série Guerra dos Tronos sabem a que me refiro). Em contrapartida, o portão original da cidade (Catherine’s Gate) está relativamente bem conservado e é aqui que paramos.

Se tivesse que vos descrever este portão diria que parece um castelo da Disney: uma construção, ornamentada com um torreão grande em forma de cone, rodeado por quatro mais pequenos. O problema, é que estes torreões simbolizavam que a cidade podia aplicar a lei da espada, ou se preferirem a pena capital. Até porque pelos vistos, a espada não era para todos, dado que só os mais ricos a podiam pagar. O comum dos cidadãos tinha que se contentar com um reles machado…

“A espada tinha uma inscrição que garantia que a alma dos condenados passava para o outro lado”, revela Simone. Mas qual lado? O bom, ou o mau? “Ora, isso não sei. Mas pelo menos, é uma garantia… Digam lá, que não é ótimo marketing?”, diz-nos Simone a rir. Sou obrigada a concordar com ela e espero também ter um pouco deste dom, para vos convencer a visitar Brasov.

Ainda não têm a certeza se merece uma visita? Enquanto decidem, vou comer uma deliciosa sopa de feijão com carne, servida dentro de broa. Conseguem sentir aquele aroma que nos conforta a alma? Ora, venham daí!

Prazer em conhecer-te meu querido Peru

Sabem aquela expressão “o barato sai caro”? Foi isso que senti no dia em que era para ter voado de Lima para Cusco, com a companhia aérea de baixo custo, LC Peru. Exatamente: era para ter voado, mas como tal nunca chegou a acontecer estou num autocarro em direção a Lima, há aproximadamente 23 horas. Daqui a quatro horas parte o meu voo para Lisboa, e confesso que já pedi a todos os santinhos para me ajudarem a chegar a tempo ao aeroporto.

Mas afinal, o que correu mal com o meu voo? Tudo começou com o check-in online: quando o website da companhia não me deixou fazer o registo no voo em que eu iria na manhã seguinte, fui pesquisar no Google. Resultado? Mil e uma histórias de ‘horror’ sobre voos cancelados ou atrasados. Mesmo assim dirigi-me ao aeroporto de Cusco no dia marcado.

“Não há qualquer problema com o seu voo, e o balcão de check-in abre dentro de 15 minutos”, foi a frase que a funcionária da LC Peru proferiu para me tranquilizar. Claro que isto nunca chegou a acontecer. Para terem uma ideia, o meu voo era às 10:45h e o voo anterior ao meu (07:45h) havia sido cancelado. Motivo? Mau tempo, sendo que por isto a companhia quer dizer céu nublado, o que é algo frequente durante a parte da manhã em Cusco. E sabem a parte mais gira? Como o cancelamento se deve a mau tempo, e não a uma avaria técnica a companhia não é obrigada a devolver o dinheiro…

Portanto, como podem imaginar o meu voo também foi cancelado e fui-me embora do aeroporto quando uma multidão enfurecida invadiu os balcões da companhia aérea, ao mesmo tempo que a polícia corria para lá, numa tentativa desesperada de serenar os ânimos de toda a gente. Aliás, fui-me embora não… o termo melhor seria, fugi com um casal de holandeses tão assustados quanto eu, quando nos apercebemos do tumulto!

O remédio foi então, comprar um bilhete de autocarro na companhia Cruz del Sur e viajar 23 horas até Cusco por terra. Mas deixem-me dizer-vos que a jornada até nem está a ser má, e que apenas o embarque foi um pouco peculiar: a estação de autocarros parecia um terminal de aeroporto, com check-in da bagagem e revista aos passageiros. Adicionalmente, e antes da partida, um segurança foi aos nossos lugares filmar a cara de toda a gente! A viagem na verdade, é como ir em classe executiva num avião. Tenho música, TV com ótimos filmes, banco para os pés, menu vegetariano à minha disposição, assento reclinável, manta, almofada, e a cereja no topo do bolo: estou sentada na parte da frente do segundo andar, com vista panorâmica.

Sinto-me uma rainha. Uma soberana um pouco stressada claro está, porque as horas depressa passam e a minha chegada ao aeroporto depende do trânsito caótico de Lima. Felizmente, os ventos sopram a meu favor e chego a tempo ao meu destino. E apesar de toda a ansiedade das últimas horas, assim que entro no aeroporto fico um pouco nostálgica, ao pensar em todas as aventuras que vivi neste país.

Quinze dias, nove cidades. Cidade, montanha, deserto, praia e selva. Ver pinguins de manhã e assistir ao pôr-do-sol num oásis ao final do dia. Aprender a fazer champô com ervas. Sair da zona de conforto e fazer sandboard. Experimentar ceviche, queso helado e chicha morada. Ver as figuras das linhas de Nasca lá no cimo, e perceber que são ainda maiores do que na TV. Mitigar os efeitos da altitude com chá de coca. Regar uma subida de duas horas com bebida de quinoa com chocolate quente, para ter energia. Achar que alguém atirou tinta para cima da Montanha Arco-Íris. Pisar uma ilha flutuante. Lacrimejar de emoção em Machu Picchu porque se realizou um sonho.

Muito prazer em conhecer-te, meu querido Peru. E até breve.

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Viagem de autocarro

Uma surpresa colorida

Sabem aquelas alturas em que estamos prestes a fazer uma grande asneira, e somos salvos no último segundo? Foi o que me aconteceu no final do dia, quando regressava a Cusco, vinda de Machu Picchu. Fui acordada no autocarro por um telefonema: do outro lado o responsável da agência onde havia reservado um tour no dia seguinte, informa-me que caiu uma ponte e como tal o caminho do passeio está intransitável.

Diz-me que me vai buscar às 3.30h da manhã ao hostel se eu quiser trocar aquele tour por uma ida à Montanha Arco-Íris. Cansada agradeço, mas declino a oferta: estava há vários dias a dormir apenas três horas por noite, e sentia as pernas a latejar do esforço contínuo. Claro, que depois caí em mim: só faltava um dia antes de iniciar o meu regresso a Portugal, e a Montanha Arco-Íris (também conhecida por Vinicunca ou Montanha das Sete Cores) era um sonho antigo. Ligo de novo e pergunto se a oferta ainda está de pé.

Se não o tivesse feito provavelmente, não estaria agora a beber um maravilhoso chocolate quente com quinoa, numa casa familiar, uma hora antes do início do trilho que irei percorrer. Serão cerca de três horas de subida até alcançar o miradouro a 5000 metros de altura, onde irei ver a palete de cores da Vinicunca no seu esplendor, logo há que ter energia para tal: a dona da casa mima-nos, com pão barrado com compota, panquecas caseiras e chá de coca com açúcar mascavado. Que delícia!

Depois deste repasto, sinto-me cheia de energia e quando uma hora depois, a carrinha que nos transporta chega ao início do trilho (a cerca de 4000 metros de altitude) sou a primeira a sair, cheia de vontade de começar a caminhar. Contudo, devo ter um ar demasiado frágil, porque sou imediatamente rodeada por habitantes locais que me acenam com acenam com um ‘facilitador’ de percurso: “Quer alugar um cavalo, menina?”. Confesso que é uma hipótese tentadora, mas não ‘gracias’! Já agora: para os leitores que tenham medo de recusar esta oferta no início do percurso, na dúvida de poderem vir a ter que necessitar dela mais tarde, talvez vos interesse saber que existem cavalos espalhados por todo caminho, e que é possível alugá-los por um preço mais acessível.

Outra sugestão: apesar de esta região ser fria (com temperaturas perto dos zero graus) não abusem na roupa! É que à medida que o corpo começa a aquecer com o esforço da subida, existe a necessidade de retirar algumas camadas de tecido. Pelo menos, é isto que me acontece após a primeira meia hora de caminhada, e puf: lá se vai o quispo. O ideal mesmo, será levar uma camisola de manga comprida e um corta-vento.

Creio que por esta altura se estarão a perguntar: quão difícil é o percurso? Bem, não é perigoso ou demasiado exigente, mas para ser sincera confesso que a meio estou tão ofegante, que penso em me atirar para o chão (sim, estou em baixo de forma…)! Mas depois, olho em meu redor e reparo nas alpacas que pastam tranquilamente nos prados, nos ribeiros que correm brincalhões, na neve que cobre os picos das montanhas em volta, e arrependo-me de sequer pensar em desistir! E as cores? A este ponto, já distingo tonalidades cereja e alface, que ficam mais vívidas consoante as nuvens deixam ou não, o sol sorrir. A frase “O que importa é o caminho não o seu fim”, não poderia ser mais adequada neste momento.

Quanto à subida em si, esta não é muito íngreme, sendo que apenas a parte final é um pouco mais inclinada. É neste ponto, em que as pessoas que vieram de cavalo têm de seguir a pé (ah, pois é, os nossos amigos de quatro patas também têm direito a descansar!) e palmilhar mais uns 200 metros de altura. Agarro-me a todas as minhas forças, nesta parte e não páro até alcançar o miradouro da Montanha Arco-Íris. Em seguida, dirijo-me a um plano um pouco acima, onde existe menos gente. É que apesar de este passeio só ter começado a ser comercializado em 2016, a sua popularidade tem crescido em larga escala, e começa a ser notório o aumento de turistas neste local.

No sítio onde me encontro, tenho vista panorâmica: de um lado observo os contornos da Montanha das Sete Cores, tão vibrantes que parecem ter sido pintados; do outro, poiso o olhar em montanhas cheias de neve e vales a perder de vista. Para vos explicar melhor: sinto que estou a assistir a um espetáculo de fogo-de-artifício!

Depois de 15 minutos a apreciar a paisagem​, dou-me conta que tenho os dedos inchados e roxos. Os efeitos das temperaturas reduzidas e do vento gelado que insiste em soprar naquele local começam a fazer-se sentir. Com medo de me tornar no João Garcia em versão feminina (ai, o meu nariz!) início a descida de imediato, quando reparo num segundo pormenor: não sei de ninguém do meu grupo de passeio!!!

Terei chegado atrasada? Ter-se-ão ido embora sem mim? Eu, e a minha maldita mania de parar em tudo quanto é sítio para tirar fotos. É a vaguear neste tipo de pensamentos que encontro um dos meus guias: feliz, abraço-o e agradeço por não me deixar para trás! “Para trás?! Tu foste a primeira a chegar, parecias o Speedy Gonzalez!”. Só posso crer que a minha rapidez foi um efeito colateral do chocolate quente com quinoa. Isso, e da beleza da paisagem que me deu asas. E por falar em paisagem: o guia explica-me que as lindas tonalidades da montanha resultam dos diferentes minerais que ali se depositaram, camada a camada, durante milhares de anos. É verdade, a mãe natureza não faz nada por acaso!

Tal como o destino. Caso o meu passeio inicial não tivesse sido cancelado, não estaria a escrever esta crónica. E tivesse eu virado costas ao meu fado, recusando esta oportunidade, teria perdido uma das surpresas mais coloridas da minha vida!

Limite? O céu!

“Oh moçooo, tira aí uma selfieee!”, pede Thiago em tom de brincadeira a um topógrafo que encontramos no caminho para Aguas Calientes. Porque é que estamos a caminhar pela linha de comboio até esta cidade, quando poderíamos ir de transportes até lá? Ora, porque tudo o que custa vale a pena portanto, queremos que o caminho até Machu Picchu seja um desafio.

É verdade meus amigos, finalmente chegou o momento mais aguardado da minha visita ao Peru: vou conhecer a cidade perdida dos incas. Cheguei no dia anterior a Cusco, e o nervosismo era tanto que nem consegui aproveitar a localidade como deve de ser. Deambulei pelo bonito centro histórico e assisti às comemorações do aniversário​ da cidade, mas a minha mente já estava a processar o que iria fazer no dia seguinte.

Comprei um pacote turístico que inclui o transporte desde Cusco até à Hidroelétrica (ida e volta), uma noite de estadia em Aguas Calientes, três refeições e a entrada para Machu Picchu. Claro, que terei de caminhar da Hidroeléctrica até Aguas Calientes, e de lá subir até Machu Picchu, mas isso são pormenores… De facto, se tivesse mais tempo disponível faria o Inca Trail em cinco dias, mas assim sendo farei a caminhada em apenas dois.

Conheci Thiago, Shelly e Geane na carrinha que me levou até à Hidroelétrica e fui imediatamente desafiada para ir com eles até Aguas Calientes. Confesso que estava um pouco preocupada por ter de fazer esta parte do percurso sozinha já que estava a recuperar de uma intoxicação alimentar, logo foi com agrado que recebi o convite. Agora, à medida que caminho por entre a selva Amazónica, sorrio com as tropelias destes brasileiros que fizeram cinco dias de autocarro para virem conhecer o país dos seus sonhos.

“Se a gente pegasse o trem, não veríamos esta paisagem linda!”, desabafa Shelly quando vemos as copas das árvores refletidas num ribeiro. Bem, para ser sincera tenho que vos dizer que quase desejei ter apanhado o comboio quando tive de passar por cima do referido curso de água, equilibrada nas tábuas da linha do comboio… Nunca gostei de alturas!

Tirando essa parte apreciei bastante o percurso: parei inúmeras vezes para tirar fotos ao comboio azul da Peru Rail (caso se estejam a questionar, com as devidas precauções não é perigoso andar nos carris, pois os comboios anunciam ruidosamente a sua passagem), fiz uma pausa para espreitar os pequenos restaurantes que se escondem no meio da folhagem, e adicionalmente, encontrei caras conhecidas (existe tanta gente a fazer o mesmo percurso que é bastante provável cruzarmo-nos com pessoas que já vimos noutras partes do país). Só que as paragens foram tantas que quando damos conta é quase de noite e temos de fazer o percurso restante de lanterna em punho.

O resto do dia foi destinado a receber instruções dos respetivos guias, fazer check-in nos hosteis (infelizmente, fiquei separada dos meus compinchas brasileiros) e jantar. Dou uma volta de reconhecimento por Aguas Calientes, mas acho-a demasiado artificial. Sabem aquele busto polémico de Cristiano Ronaldo que foi feito para o aeroporto da Madeira? Pois, eu achei as estátuas de incas em bronze espalhadas pela cidade ao mesmo nível…

Depois disso, enquanto descanso no meu quarto e me sinto um pouco triste por não ter ficado com o contacto do trio que me acompanhou na caminhada deste dia, tenho uma surpresa! O recepcionista bate à porta anunciando: “O seu amigo Thiago, está aqui!”. Feliz por voltar a rever aquela malta bem-disposta, galgo as escadas até à entrada do edifício, e juntos combinamos um ponto de encontro às 4h da manhã. Unidos, iremos até Machu Picchu!

Nessa noite, a ansiedade misturada com a intoxicação alimentar que teima em regressar não me deixa dormir. Nem a mim, nem a um pobre rapaz que partilha o quarto comigo. “Precisas de alguma coisa?”, pergunta ele preocupado, depois de eu ter ido ao WC pela enésima vez. Inquieta, resolvo ir até à recepção do hostel para pedir o saco com o pequeno almoço reforçado a que tenho direito, e faço algum tempo na rua até me reunir ao trio maravilha.

A quantidade de pessoas que passa por mim a partir das 3h da manhã começa a ser bastante, portanto, não é com espanto que ao chegarmos ao primeiro posto de controle de Machu Picchu às 4.30h (só podemos entrar às 5h), enfrentemos uma fila de espera considerável. Ainda assim, os guardas são bastante expeditos a verificar os documentos necessários para o ingresso desta multidão (passaporte e bilhete de entrada) e quando damos por nós estamos a subir a escadaria que nos dará acesso às ruínas incas.

“Isto é para expiarmos todos os nossos pecados, força!”, incita Shelly quando olha para mim e vê o ar de uma morta-viva que está prestes a atirar-se das escadas abaixo. Nem lhe respondo… estou demasiado ocupada a amaldiçoar mentalmente os incas, e a atividade sísmica do Peru que contribuiu para que este povo fosse procurar abrigo nas alturas.

Continuamos a avançar enquanto a noite cerrada ameaça tornar-se dia, e quando reparamos estamos praticamente sozinhos no caminho: a multidão foi desaparecendo apressada, empenhada em alcançar o nascer-do-sol em Machu Picchu. Como tempos desesperados pedem medidas desesperadas, tomo a dianteira e tento animar os meus companheiros anunciando que “já estamos muito perto!” sempre que chego ao fim de mais um lance de escadas.

Claro, que repeti isto durante quase meia hora. Sabem a história do Pedro e do Lobo? Pois, quando finalmente alcancei a entrada de Machu Picchu ninguém acreditou em mim até a ver com os seus próprios olhos. Demorámos quase duas horas em vez dos 45 minutos previstos para chegar, mas nada disso importa pois no momento em que pisamos aquele solo inca choramos abraçados!

A paisagem é ainda mais avassaladora do que nas fotos: a frescura das montanhas, a história aos seus pés e o astro-rei a nascer. Como é possível que os conquistadores espanhóis não tenham dado por esta cidade até ao explorador Hiram Bingham a descobrir em 1911? Será que nunca tiveram coragem de subir até aqui, ou desistiram perante o esforço? Quanto a mim, sinto que valeu a pena subir cada degrau só para ver a luz beijar o Templo do Sol. Relaxada, sento-me durante quase uma hora nos terraços relvados, e agradeço a sorte que tivemos com o dia: nem sinal da famosa garua peruana (neblina)!

Porém, a vida real atinge-me como um beliscão, acordando-me deste sonho. O final da manhã aproxima-se e está na hora de nos pormos a caminho, por forma a estarmos às 15h na Hidroelétrica onde nos espera a boleia de volta a Cusco. Para além do mais, temos outras necessidades: só se pode comer, beber, ou ir ao WC fora do espaço (embora se possa reingressar com o mesmo bilhete três vezes no mesmo dia) e admito que preciso de um reforço de energia.

À saída, tiro uma última foto à montanha Huayna Picchu. “São estas experiências que fazem de nós melhores seres humanos”, diz-me Geane. E a verdade, é que depois desta dura etapa física me sinto uma pessoa mais forte! Dizem que o único limite é o que nos impomos a nós próprios. Pois, hoje o meu limite foi o céu!

No Lago Titicaca respira-se paz

O que fariam se estivessem em viagem, e durante uma pausa em que saíram do autocarro para esticar as pernas, este partisse sem vós? Eu fiquei mortificada quando isso me aconteceu, deviam ter visto a minha cara quando ouvi o motor do veículo e me dei conta que iria ficar em terra! Felizmente, a rapariga que estava sentada meu lado deu pela minha falta e o autocarro imobilizou-se um pouco adiante, enquanto eu corria que nem uma louca, com a mochila às costas atrás dele!

Este foi o momento alto da manhã em que viajei para Puno, a localidade peruana que dá acesso ao Lago Titicaca, e não sei se foi devido a esta adrenalina, ou à altitude (3800 m) mas à chegada estava de rastos. Claro que o cansaço e a má disposição não ajudaram na primeira impressão que tive da cidade: a quantidade de habitações em mau estado fez-me recordar uma favela gigante (existem muitas casas degradadas ou por terminar no Peru, devido ao terramoto de 2015 e porque os edifícios inacabados estão isentos de impostos).

Sento-me na entrada do hostel com a cabeça a latejar, e devo estar mesmo com mau ar porque uma senhora da receção vai a correr fazer-me um chá de coca. É remédio santo! No final da tarde já consigo dar uma volta pela cidade, e a má sensação do início do dia começa a dissipar-se: a Praça de Armas tem um ar bastante simpático, assisto a uma demonstração de danças tradicionais no centro histórico, e até o mercado local com a sua confusão de vendedores me fascina.

Não é a cidade mais bonita que visitei até agora​, mas não faz mal pois a razão da minha ida até Puno prende-se com outro fator… explorar o Lago Titicaca e as ilhas flutuantes construídas pelo povo de Uros: reservei uma visita guiada mesmo antes de viajar para o Peru. A expectativa é tal, que nessa noite praticamente não durmo com a excitação, e na manhã seguinte quase não dou pela viagem de barco até à primeira das duas ilhas flutuantes que iremos visitar.

No primeiro ponto de paragem, aprendo mais sobre o modo de vida dos nativos e da construção das ilhas, através de uma demonstração em pequena escala: dois homens mostram como unem blocos de terra com troncos de eucalipto atados com cordas, e posteriormente cobrem-nos com ​canas de totora. As cabanas são construídas em cima destas plataformas flutuantes que são bastante resistentes! Tanto, que até “podemos jogar futebol e volley, mas não basquete porque a bola não salta!”, brinca um dos habitantes. Esta demonstração não demora mais do que dez minutos, por isso fico admirada ao saber que na realidade o processo demora cerca de um ano! Claro que os materiais se vão degradando e, apesar de toda a manutenção, as ilhas têm um prazo de validade de 20 anos.

Contrariamente ao eucalipto que é trazido de Puno, a totora cresce no Lago Titicaca e tem múltiplos usos: para além da construção das ilhas, é utilizada na elaboração das cabanas e barcos de Uros. “Querem dar uma volta no meu Mercedes Benz?”, pergunta um dos habitantes antes de nos ajudar a subir a bordo da sua canoa. Enquanto navegamos calmamente pelo lago, observamos duas crianças que pescam à linha. Admiro a sua agilidade e sou informada que os petizes aprendem este ofício desde bastante novos. Porém, também têm outro tipo de educação: existe uma escola primária numa das ilhas e, segundo o nosso guia, é por pouco que não nos cruzamos com o professor que faz a viagem de Puno até lá diariamente.

No final do passeio, cada um de nós entrega dez soles ao chefe da ilha. É esta verba juntamente com a venda de algum artesanato e as receitas das visitas que ajuda a financiar as necessidades básicas dos habitantes, e ter acesso a alguma modernização: a título de exemplo, os painéis solares que instalaram há cerca de dois anos permitem-lhes ter algumas comodidades como televisão nas cabanas.

Partimos daqui rumo a Taquile fazendo apenas uma curta paragem noutra ilha flutuante para carimbar o passaporte (vão prevenidos se quiserem ficar com esta recordação!) e comprar alguns snacks. A jornada que nos aguarda é de duas horas, mas passa a correr. Vou para o convés apanhar sol, e enquanto troco impressões sobre a culinária peruana com outros passageiros descubro que andei a pronunciar ‘Pollo’ (frango) incorretamente durante o tempo em que estive no Peru: aparentemente, andei a pedir a uma ‘menina da vida’ grelhada! “Oh não, encomendei o almoço mal durante uma semana!”, exclamo desesperada perante a risada geral dos outros.

Ao desembarcar em Taquile são-nos entregues ramos de munha, a planta utilizada pelos habitantes desta ilha para mitigar os efeitos da altitude. O perfume das suas folhas, juntamente com a recompensa que me aguarda no topo da subida que terei de fazer, ajudam-me na caminhada até ao restaurante onde iremos almoçar. À nossa espera está um prato de sopa de quinoa, pão com vegetais e truta grelhada (acabadinha de pescar) acompanhada com arroz.

O local do repasto foi igualmente bem escolhido: saboreamos a refeição numa mesa corrida ao sol, e com vista para o mar. Hummm, que delícia! “Vocês esqueceram-se do protetor solar mas trouxeram vinho?!”, pergunta uma colega, entre risos, quando um casal de holandeses pede um copo e saca uma garrafa de vinho branco da mala.

Reina a boa disposição à mesa, e é com esse estado de espírito que recebemos uma habitante local que nos demonstra o fabrico de champô através de uma planta chamada chukjo. O processo parece simples: esmagar as folhas com uma pedra, filtrar com um pano, juntar água e voilá! “Não existem carecas em Taquilhe!”, diz-nos a simpática senhora enquanto nos dá a cheirar uma tigela com o champô. Cá para nós: tinha um aroma tão agradável que me apeteceu trazer um frasco cheio para Portugal!

Despedimo-nos dos nossos anfitriões e caminhamos até à outra ponta da ilha, onde está atracado o barco que nos levará de regresso a Puno. O caminho está repleto de vistas panorâmicas, casas com flores nas janelas, e anciões sentados a tricotar nos muros (contrariamente ao que estou habituada a ver em Portugal, aqui esta é uma tarefa exclusiva dos homens).

“As pessoas da ilha ainda conservam as suas tradições: existe um hospital mas 70% da população prefere os xamãs aos médicos”, revela-nos o guia. Xamãs?! Aqueles curandeiros que fazem feitiços? Bem, quase isso… segundo o que me é transmitido estes ‘médicos’ têm um método de cura que consiste em colocar porquinhos-da-índia no peito dos pacientes, de modo a que a doença passe para os animais.

Métodos arcaicos? Talvez, mas a verdade é que os habitantes desta ilha têm vitalidade para dar e vender! Seguindo as suas recomendações inspiro folhas de munha enquanto ando, e ao chegar ao barco reparo que a minha respiração continua tranquila, apesar dos quilómetros que andei. Na realidade, sinto-me muito mais calma do que quando cheguei a Puno e parece que de repente, todo o cansaço se dissipou.

As mezinhas não funcionam? Bem, comigo foram tiro e queda! Em Taquile o tempo passa devagar, ao ritmo da natureza. No Lago Titicaca respira-se paz.